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domingo, setembro 20, 2026
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Fúria rompe com Rocha, mas quer apagar quem o colocou no palanque: se a criatura trai um aliado, será que não trairá seu eleitor?

Por Édson Silveira

Adaílton Fúria iniciou sua candidatura ao Governo de Rondônia com o apoio político do governador Marcos Rocha, presidente estadual do PSD. A aliança ajudou a apresentá-lo como o nome do grupo governista para a sucessão estadual.

Agora, o próprio Fúria afirma ter perdido o apoio de Rocha e diz que o governador estaria apoiando outro candidato. A antiga parceria, portanto, deixou de ser apenas uma disputa interna entre lideranças e passou a interessar diretamente ao eleitor.

Os fatos são claros: Fúria foi apresentado com o respaldo do grupo governista; Rocha participou da construção política de sua candidatura; e, posteriormente, a relação entre os dois se deteriorou. Se houve rompimento, ambos têm o direito de seguir caminhos diferentes. O que não podem fazer é reescrever a trajetória como se a aliança nunca tivesse existido.

Na política, candidaturas podem ser apresentadas como projetos coletivos e, depois, passar a ser vendidas como iniciativas independentes. O problema surge quando se tenta apagar a estrutura partidária, os palanques, as articulações e os padrinhos que ajudaram a colocar o projeto de pé.

Fúria tem responsabilidades a explicar. Não pode tratar o apoio de Rocha como uma bênção estratégica na origem e, depois, reduzi-lo a um detalhe inconveniente quando a relação azedou. Se o apoio era indispensável para lançar a candidatura, por que deixou de ser relevante para explicar sua consolidação?

A questão não é exigir submissão política nem impedir mudanças de rumo. Alianças terminam, divergências surgem e novas composições são legítimas. Mas quem participou de um projeto, pediu confiança e ocupou palanques precisa reconhecer sua origem e explicar por que decidiu se afastar dela.

É justamente nesse ponto que surge a desconfiança do eleitor. Quem rompe um acordo, abandona uma parceria e depois tenta apagar a própria história pode transmitir a impressão de que não respeita compromissos. Se não cumpre o que foi combinado com aliados, por que o eleitor deveria acreditar que cumprirá o que promete durante a campanha?

A política permite mudanças de posição, mas não transforma a quebra de acordos em prova de caráter. Ao contrário: quando alguém trai uma aliança e tenta apresentar o rompimento como se fosse uma descoberta repentina de princípios, o eleitor tem o direito de perguntar se está diante de uma convicção verdadeira ou de uma estratégia para enganá-lo.

Quem muda de lado por conveniência pode estar apenas trocando de discurso para preservar o próprio projeto. E quem tenta esconder os compromissos que o ajudaram a chegar até aqui corre o risco de parecer mais interessado em controlar a narrativa do que em dizer a verdade.

Rocha também tem responsabilidades. Se Fúria era o nome de seu grupo para a sucessão, quando deixou de ser? O governador mudou de avaliação? Houve quebra de compromisso? Ou a troca foi apenas uma decisão eleitoral? Se passou a apoiar outro candidato, precisa explicar por que abandonou o projeto que ajudou a apresentar.

A cobrança de coerência vale para os dois lados. Fúria não pode esconder o padrinho depois de utilizar sua força política. Rocha, por sua vez, não pode tratar a mudança como simples ajuste de rota sem esclarecer os motivos que levaram ao rompimento.

O eleitor observa esse tipo de comportamento com desconfiança porque sabe que a confiança política não se constrói apenas com discursos. Ela depende de coerência, lealdade e cumprimento de compromissos. Quem trai um aliado, nega a própria trajetória e tenta convencer o público de que nada aconteceu pode estar pedindo mais do que um voto: pode estar pedindo que o eleitor aceite ser enganado.

Na política, todos podem mudar de posição. O que não deveria mudar com tanta facilidade é a responsabilidade de prestar contas. A memória pública registra quem pediu apoio, quem ofereceu estrutura e quem mudou de lado quando a conveniência deixou de ser a mesma.

Por isso, o eleitor tem perguntas a fazer. Houve mudança de projeto, quebra de compromisso, cálculo eleitoral ou apenas uma disputa por espaço apresentada como princípio? Se Fúria não precisa mais de Rocha, por que precisou tanto dele para chegar até aqui? E, se Rocha deixou de apoiar Fúria, por que o apresentou como representante de seu grupo?

Quando a aliança era conveniente, os dois pareciam falar a mesma língua. Agora que o casamento político acabou, cada um parece ter descoberto que sempre foi solteiro.

O eleitor não é plateia de uma novela em que os personagens mudam de lado e fingem nunca ter aparecido no capítulo anterior. Se a criatura nega o criador, ambos precisam explicar quem criou o quê, quem ofereceu a estrutura, quem pediu confiança e por que a parceria terminou.

Mais do que isso: precisam entender que o eleitor desconfia de quem não honra acordos. Quem não cumpre compromissos políticos pode não merecer confiança para assumir compromissos maiores com a população. A urna não deve servir de prêmio para quem muda de discurso conforme a conveniência e depois tenta convencer o público de que sempre agiu por princípio.

A responsabilidade política não aparece apenas na hora de pedir votos. Também precisa comparecer quando chega o momento de justificar escolhas, rompimentos e conveniências.

Edson Silveira, advogado, administrador e professor

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