35 C
Porto Velho
segunda-feira, outubro 12, 2026
spot_img
spot_img

Fátima toca na ferida; o governo deve explicações

Debater a letalidade policial é cobrar uma segurança pública que proteja moradores e policiais

Por Édson Silveira

Fátima Cleide ainda não assumiu o mandato de deputada estadual, mas já entrou em um debate que Rondônia precisa enfrentar: as mortes decorrentes de intervenções policiais, a proteção dos jovens das periferias e as condições de trabalho dos profissionais da segurança.

Na minha avaliação, fez o que se espera de uma parlamentar comprometida com a sociedade. Questionou, provocou discussão e colocou um problema na mesa. Para quem prefere uma Assembleia silenciosa e satisfeita com releases oficiais, deve ser um começo bastante desagradável.

O governo de Rondônia precisa compreender uma coisa elementar: fiscalizar a política de segurança pública faz parte da democracia. A Polícia Militar merece respeito. O governo merece cobrança. Confundir as duas coisas é muito conveniente para quem administra o orçamento e pretende escapar da responsabilidade pelos resultados.

Os números não cabem debaixo do tapete

O levantamento de Rodolfo Jacarandá, baseado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, aponta que Rondônia passou de oito mortes decorrentes de intervenção policial, em 2024, para 47, em 2025. São 39 mortes a mais, um crescimento de 487,5%. Segundo a mesma análise, 46 dos casos de 2025 foram atribuídos a policiais militares em serviço. Esses números são apresentados aqui como informações do levantamento, sem conferência direta das tabelas originais do Anuário. (rodolfojacaranda.com)

É uma escalada que exige explicações. Os dados, isoladamente, não comprovam abuso em cada ocorrência. Mas tornam indispensável investigar as circunstâncias, avaliar os protocolos e esclarecer o que aconteceu.

Imagino que seria mais confortável discutir apenas inaugurações, solenidades e fotografias oficiais. Infelizmente para o governo, a realidade não costuma obedecer à assessoria de comunicação.

Outro levantamento, referente a janeiro a novembro de 2025, registrou 35 mortes. Segundo reportagem do Diário da Amazônia, baseada em dados do Observatório Estadual de Segurança Pública, todas as vítimas eram homens, a maioria entre 16 e 29 anos. Porto Velho concentrou 24 ocorrências, e a escolaridade não foi registrada na maior parte dos casos. Trata-se de um recorte diferente do balanço anual, que exige cuidado na comparação. (diariodaamazonia.com.br)

O quadro merece atenção séria. São vidas, famílias e comunidades afetadas. A qualidade dos registros também importa: sem informações completas, o Estado prejudica sua própria capacidade de compreender a violência e formular respostas.

O governo deve responder pela política que conduz

Minha crítica ao governo de Marcos Rocha é direta: cabe à gestão apresentar informações claras sobre planejamento, aplicação dos recursos, prevenção, investigação e resultados. A obrigação de prestar contas não termina quando o discurso termina.

O levantamento de Jacarandá também aponta aumento de aproximadamente 62% no gasto real com segurança entre 2021 e 2025. Esse percentual precisa ser examinado nas fontes originais e relacionado aos demais indicadores; sozinho, não demonstra sucesso ou fracasso. Mas reforça uma cobrança legítima: onde foram aplicados os recursos e quais resultados produziram? (rodolfojacaranda.com)

Se o governo quer aplausos pelo investimento, precisa aceitar perguntas sobre seus efeitos. Dinheiro público não é troféu para ser exibido em solenidade. É instrumento para melhorar a vida da população.

Valorizar o policial exige mais que elogios

Nossos policiais enfrentam riscos concretos. Precisam de equipamentos adequados, treinamento continuado, apoio psicológico, condições dignas de trabalho e protocolos que protejam sua atuação e a população.

É fácil elogiar a coragem de quem está na rua. Mais trabalhoso é garantir que esse profissional tenha estrutura, orientação e apoio. O governo precisa ser avaliado pelo que oferece ao policial durante todo o serviço, e não apenas pela homenagem que faz quando ocorre uma tragédia.

Também precisamos fortalecer a investigação, a inteligência e a tecnologia. Combater facções exige chegar ao financiamento, às armas, aos dirigentes e às redes que sustentam o crime organizado.

O policial na ponta não pode ser transformado em resposta universal para problemas que exigem atuação de várias instituições. Quando falta planejamento, sobra pressão sobre quem veste a farda.

A periferia tem direito à proteção

Moradores do Orgulho do Madeira, do Morar Melhor e de outras comunidades precisam de segurança e presença responsável do Estado. O endereço de uma pessoa não pode funcionar como sentença antecipada.

A lógica expressa no bordão “eliminar CPF” banaliza vidas e empobrece o debate. Emprego a expressão como crítica a essa mentalidade, sem atribuí-la aqui a uma autoridade específica. Uma política pública deve buscar reduzir crimes, esclarecer delitos e proteger pessoas.

Em nota, a assessoria de Fátima afirma que sua fala foi descontextualizada e que a crítica se dirigia aos excessos e às orientações políticas que pudessem favorecê-los. A posição apresentada também reafirma respeito à Polícia Militar, aos profissionais mortos em serviço e às suas famílias. A avaliação definitiva da controvérsia depende da fala original e de seu contexto completo.

Um gabinete aberto e um governo sob fiscalização

Conforme o compromisso apresentado, após sua posse em 2027, Fátima colocará seu gabinete na Assembleia Legislativa à disposição da Polícia Militar e dos demais órgãos e profissionais da segurança pública. O diálogo deverá envolver as corporações, suas entidades representativas e a sociedade.

Essa disposição deve se traduzir em propostas, fiscalização e luta por melhores condições de trabalho, valorização profissional, treinamento, tecnologia e investigação.

A meu ver, Fátima acerta ao enfrentar o tema. Rondônia precisa de parlamentares que façam perguntas difíceis e de um governo capaz de responder com informações e ações.

A gestão estadual pode até se incomodar com a cobrança. Mas indignação não é indicador de eficiência, propaganda não esclarece mortes e melindre não combate o crime.

Édson Silveira — advogado, administrador, professor, funcionário público aposentado e analista político.

Últimas

- Publicidade -

Relacionadas