Por Roberto Kuppê (*)
Eram 21 horas de uma terça-feira, do dia 16 de outubro de 1990. Eu estava em casa, em Porto Velho, já dormindo, quando me acordaram para informar que haviam assassinado o senador Olavo Pires (PTB-RO), para quem naquele momento eu trabalhava na campanha ao governo de Rondônia. Horas antes eu tinha estado com ele, na sede da Vepesa (revenda de tratores), na avenida Jorge Teixeira, onde ele residia também. Eu estava responsável por relacionar todos os diretores de rádios da capital e interior do estado, para que Olavo Pires pudesse falar com cada um. Ia apresentar o relatório no dia seguinte.

Dias antes, o clima na campanha já era de apreensão, medo, temor. Olavo Pires havia recebido várias ameaças de morte. Eu trabalhava na campanha, no marketing responsável pelas gravações do programa eleitoral. Lembro exatamente do primeiro programa que foi ao ar. Olavo e o então governador de Rondônia, Jerônimo Santana (MDB), estavam brigados politicamente. Jerônimo chamava Pires de traficante e assassino.
O MDB tinha um candidato, Orestes Muniz, que não conseguiu ir para o segundo turno. Passaram para o segundo turno Olavo e Valdir Raupp, então no PRN. O terceiro colocado foi Osvaldo Piana, do extinto PTR. Para o primeiro programa, fomos até a um sítio nos arredores de Porto Velho e gravamos uns porcos no chiqueiro. De tremendo mau gosto, o programa foi ao ar fazendo uma alusão ao governador Jerônimo Santana que era baixo gordo. Parecia um porco. Como disse, de mau gosto e foi para o ar apenas uma vez, causando mal estar não só no governo, como na própria campanha de Olavo. E isso acirrou mais ainda a campanha eleitoral de 1990.

Nos out doors assinado pelo então deputado estadual Amizael Silva (PDS), uma frase inquietava a campanha de Olavo: “DIGA NÃO AO TRAFICANTE”. Era a fake news da época. Olavo nunca foi traficante, mas o nome dele foi relacionado ao tema após seu piloto ser flagrado transportando cocaína em São Paulo. Olavo ostentava. Tinha na garagem dele em Brasília nove Mercedes Benz, chamando muita a atenção da mídia nacional. Era muito agressivo e metia medo a quem trabalhava com ele. Olavo também adorava mulheres e se casou com uma miss de Goiás. Tudo isso foi moldando a forma como as pessoas o viam e assim foi fácil carimbarem nele a suspeita de ser traficante.
Bom, certo dia, numa gravação, OP não conseguiu gravar, pois chorava muito devido às ameaças de mortes. Nos comícios o clima era sempre de tensão e medo. Naquela época se podia fazer showmícios com artistas renomados. No dia do comício com show de Fábio Júnior, Olavo Pires discursou com a mãe dele à frente, como um escudo humano. Eu ficava rondando a multidão para ver se via algo suspeito. Um inesperado barulho de uma caixa de som assustou a todos. Parecia uma tiro. Mas era apenas a caixa de som dando aquele susto.
Enfim guindado para o segundo turno, Olavo Pires relaxou na segurança que era comandada pelo coronel PM Ferro e passou a fazer visitas só com o motorista Vitinho e alguns correligionários da época como Chagas Neto, Bosco Almeida e o deputado Haroldo Santos.
Neste fatídico dia 16 de outubro de 1990, âs 19h30, uma hora antes da sua morte, Olavo Pires visitou Osvaldo Piana na Assembleia Legislativa de quem pediu apoio para o segundo turno. Em seguida, ele visitou o empresário Mário Calixto no jornal O Estadão do Norte. Depois fez uma visita à Fundação Olavo Pires e, por volta das 20h30 horas voltou para a Vepesa. Totalmente relaxado, desceu da caminhonete Bonanza vermelha e se dirigiu a um grupo de pessoas, dentre elas, uma professora, Maria Ineide Batista, que o esperava na porta da empresa dele. Neste grupo estava um dos seus assassinos. Ao chegar mais perto, recebeu duas rajadas de metralhadora em cruz, de cima para baixo e de um lado para o outro. Suas vísceras se espalharam pelo chão e o cérebro ficou à vista. Não deu nem tempo aos que o acompanhavam no carro, descessem para evitar o ocorrido ou serem atingidos também. A professora Maria Ineide Batista recebeu alguns tiros na perna, e segundo a ex-senadora Fátima Cleide (PT), “minha amiga Ineide até hoje convive com um projétil nas costas, que causa imensas dores mas não pode ser retirado”.
Naquele momento a vida do mito Olavo Pires chegava ao fim. Até hoje não se sabe quem mandou matar Olavo. E quem sabe, não fala ou já não está mais aqui para contar, como o motorista dele, Vitinho, que foi assassinado. Foi uma ação orquestrada, planejada e executada por profissionais, com apoio de forças ocultas. Naquela noite até a Ceron contribuiu, desligando as luzes dos arredores da Vepesa. Coincidência ou acaso?
Nos dias que sucederam ao brutal assassinato, o clima continuou pesado. Na produtora se procurava vídeos que pudessem identificar pessoas suspeitas. A Polícia Civil de Jerônimo Santana, adversário de OP, foi a responsável, claro, pelas investigações. O tempo todo se fazia ligação do crime com o narcotráfico. “Foi acerto de contas” diziam na época. Mas, durante as investigações e a CPI da Pistolagem no Senado Federal, não se encontrou evidências de ligação de Olavo com narcotraficantes. O crime fora político. Com a morte de Olavo, ascendeu ao segundo turno o terceiro colocado, Osvaldo Piana que venceu Raupp, se tornando governador.
P.S. Antes de encerrar, quero dizer como conheci o clã Pires. Nas eleições de 1986, o então deputado federal Olavo Pires era candidato ao Senado Federal. Eu tinha uma revista chamada Daily People que publicava sobre a sociedade rondoniense. Tinha sempre uma garota na capa e isso chamou a atenção de Marco Emílio Pires, irmão de Olavo. Marco Emílio era um bon vivant. Vivia as benesses da vida às custas do irmão. Certo dia ele me procurou para saber quem era uma das garotas da capa. Como me arrependi de ter feito o contato entre os dois. Mas, isso eu conto depois. Fui penetrando no seio da família Olavo. Conheci então o filho de Olavo do seu terceiro casamento, Emerson Pires, garoto de 15 anos. Alto e magro como o pai. E fui adentrando até ser chamado por Olavo para a campanha ao governo em 1990. Nestas eleições, o partido de OP, o PTB, elegeu os oito deputados federais. Fim.
(*) Roberto Kuppê é jornalista e articulista político




