Por Roberto Kuppê (*)
Tenho observado que algumas igrejas neopentecostais (essas novas que poluem nossas tevês todos os dias), atraem fiéis pelo laço, quase que, obrigando-os a participar de seus cultos e a contribuir com dízimos. Como assim, nobre escriba? Explico. Geralmente o alvo (ou as vítimas) são pobres desesperados, em busca mais de satisfação material do que espiritual.
“Ah, mas tem gente rica nessas igrejas”. Claro que tem. Nem sempre quem tem dinheiro significa que tem paz dentro de casa ou no seio familiar. Haverá sempre uma carência. Tem a questão da culpa também. O que não fizeram para obter essa riqueza? Quanto mais dinheiro, mais chances de pecar, de cometer erros. Mansões, carrões, drogas, sexo fora do casamento, luxúria. O pior dos pecados.
Os “pastores” modernos estão mais para influencers ou aqueles palestrantes que cativam milhares com suas falas bonitas. Eles atuam como hipnotizadores, encantadores de serpentes, que com suas flautas mágicas conseguem iludir o ouvinte.
O que é essa imagem ao lado? Uma suposta “possuída” pelo demônio. Segundo blogueiro Rodrigo Arruda, trata-se de um pastor Bolsonarista enganando os fiéis de sua igreja com um falso exorcismo. A falsa endemoniada é de direita, pois obrou até para o Lula. Segundo a possuída, ao responder à indagação do “pastor”, Lula iria destruir o Brasil (risos). Dá para levar a sério essa igreja e esse pastor?
Será que os fiéis que participam desses teatros chulos vão para o céu? Talvez até vão, mas esse pastor, com certeza, tem lugar certo no inferno! Eles enganam pobres que já estão desesperados e tiram deles os últimos centavos que ainda possuem!
Polícia! Quem tem medo da polícia? Esse que vos escreve não tem medo da polícia, tem medo de maus policiais que abundam por todo o território nacional. A despeito de fazer valer a lei, torturam e até matam. “Bandido bom, é bandido morto”. Não. Bandido bom, é bandido preso ou regenerado. Só pau que nasce torto, morrerá torto.
Pensem num jovem de 16 anos que acabou de roubar um celular (exemplo maldito!). Até aos 15, ele era apenas um jovem, aluno bem aplicado na escola. Em casa, aquela pobreza. Nas rodas de amigos, todos com celulares bons. Ele com um peba, ou até sem. Instigados por alguns amigos, se aventura num roubo. Seria a primeira vez dele. Os colegas conseguem escapar, mas ele é pego e surrado até a morte por populares. “Ladrão de celular tem que morrer”, como se um celular, por mais caro que seja, valha mais do que uma vida.
Um caso menos letal. Não morreu, foi preso. Por causa de um celular passou três anos na cadeia onde aprendeu muitas coisas do mundo do crime. Vai sair de lá como? Feliz pela liberdade ou com sentimentos de vingança por ter estado três anos preso por causa de um celular? Geralmente sairá com sede de cometer algum crime como vingança. Ou seja, prisão não resolve, só piora.
Jovens, a maioria negros e pobres, periféricos, têm mais medo da polícia do que respeito. Já nascem odiando a polícia. No mundo das favelas, polícia é inimiga da população pobre. E, as vezes, o traficante do bairro é o bem feitor, o protetor. No Brasil é assim.

Estive na Dinamarca e na Noruega (ah, lá vem ele com essa história de novo) (1). Nesses países, o jovem não tem problemas com a polícia. Aliás, nascem sem problemas. São países de primeiro mundo. Todos têm um lar, boas escolas e excelente sistema de saúde. Tudo público, de graça. Esses dois países são monarquia (reis e rainha).
Na Dinamarca, por exemplo, a delegacia de polícia fecha às 17 horas e as celas estão sempre vazias. Não há ocorrências policiais com frequência. Roubo nas ruas? Nenhum. Ninguém precisa roubar nada. Ganham o suficiente para suprir suas necessidades. Desempregado recebe mil euros por mês. As mães possuem babás pagas pelo estado. Até mendigo (existe pessoas em condições de rua, sim, quase 100% estrangeiros), recebe 200 euros por mês (2).
Drogados? Existem sim. Mas, são cadastrados e amparados pelo estado. Existe até uns quiosques nas praças onde os drogados recebem suas drogas de graça. É sério gente. Passei um mês na Noruega. Fiquei num hostel (albergue). Ninguém pega nada de ninguém. Certa vez vi uma carteira numa mesa. Essa carteira ficou lá horas e horas até que alguém a pegou.
Bicicletas ficam estacionadas nas frentes das casas sem muros. Ninguém pega nem emprestado. Tem bicicletário público onde você pode pegar uma bicicleta usar e deixar em outro bicicletário. Lindo, né? Pois é. São tudo gente de bem? Dentro do que taxamos de gente de bem, sim. Mas, tem um porém. A maioria da população é ateia. Ou seja, não acredita na existência de Deus.
No Brasil se alguém disser que é ateu é apedrejado por cristãos! Risos. Se disser que é de esquerda, é taxado de comunista! Se ajudar as pessoas, dar um lar para sem teto, saúde e educação gratuita é ser comunista, eu sou comunista sim (risos).
Resumindo, em países desenvolvidos, principalmente os nórdicos, Deus e polícia não são procurados com frequência. Porque só procura polícia quem precisa. Deus, só os desesperados!
“O mínimo de dignidade ao povo é o fator que mitigará a violência social e policial. Tanto quanto a dignidade diminui, inibe, faz retrair, a marginalização social, a ausência de condições básicas para a manutenção da vida leva ao desespero”, Vinício Carrilho Martinez (Dr.) é professor Associado IV da UFSCar/SP
(1)- Estive em outros países da Europa e Estados Unidos também. Mas, do meu ponto de vista, nada a destacar.
(2) Ser mendigo na Dinamarca está proibido sob pena de até 14 dias de prisão sem aviso prévio. Em julho de 2017, o Folketing (Parlamento dinamarquês) aprovou a polêmica lei – somente com o apoio da direita – porque considerou que a mendicância criava “inconvenientes” aos que circulam pelas ruas. Hoje, os resultados da aplicação dessa polêmica medida são no mínimo sugestivos: 52 estrangeiros condenados. Nenhum dinamarquês.
Em um país com pleno emprego, com um dos salários per capita mais altos do mundo (e também uma pressão dos impostos), índices invejáveis de igualdade de gênero e um robustíssimo Estado de bem-estar, os estrangeiros pobres e sem permissão de residência e, portanto, sem direito às ajudas públicas, estão destinados já não à mendicância, mas à prisão durante duas semanas.
“Existem estrangeiros que viajam à Dinamarca exclusivamente para pedir nas ruas (…) muitos eram agressivos com as pessoas. E elas não se sentiam seguras. Fizemos essa lei [em julho de 2017]para acabar com essas práticas”, diz por telefone um representante do Ministério da Justiça, liderado por Søren Pape Poulsen, do Partido Conservador, que não quer ser citado. Maja Løvbjer Hansen, da Gadejuristen, uma organização de advogados que presta seus serviços a pessoas vulneráveis como os sem-teto, diz que essa lei tem como objetivo os estrangeiros pobres que chegam à Dinamarca em busca de trabalho, mas que, pelas dificuldades de entrar no mercado de trabalho dinamarquês (conhecer o idioma, por exemplo), “terminam recolhendo garrafas e pedindo e dormindo nas ruas”.
Muitas ONGs chamaram na imprensa local de “discriminatório” o fato de que a Polícia só deteve estrangeiros, especialmente da Romênia, durante os 12 meses em que a lei está em vigor, apesar de, segundo as autoridades, existirem mendigos dinamarqueses. A advogada Løvbjer afirma que 50% dos mendigos da capital, Copenhague, são de nacionalidade dinamarquesa. O EL PAÍS tentou entrar em contato três vezes com a Polícia, sem obter respostas. “O Governo deixou muito claro que o objetivo são os estrangeiros, de modo que esses números não me surpreendem”, diz a advogada, que afirma que no passado tanto os políticos como a imprensa circunscreveram esse assunto à comunidade cigana. As declarações do deputado liberal Marcos Knuth em 2017 são explicativas: “Já é suficiente. É hora de trabalharmos arduamente contra a praga de ciganos que ataca Copenhague todos os verões”.
(*) Roberto Kuppê é jornalista e articulista político




