Por Augusto Lacerda
Entre o pedágio, a cruz, o palanque e o teclado
Se a política rondoniense fosse uma cena bíblica, a BR-364 seria o Calvário, o pedágio o martelo e a opinião pública a multidão em volta da cruz. Em poucos meses, nossa principal rodovia deixou de ser apenas estrada e virou símbolo do que há de mais previsível na política: indignação tardia e fuga organizada da responsabilidade.
O que diz a lei — e o que diz o palanque
A concessão da BR-364 não surgiu por milagre nem por emboscada. É um ato do Executivo federal, via Ministério dos Transportes e ANTT. O Congresso não vota concessões, mas tem o dever de fiscalizar, acompanhar e propor ajustes. Quando parlamentares dizem que “não sabiam”, o problema não é jurídico — é político. Em ano eleitoral, a técnica perde espaço para o discurso fácil.
A cruz tem muitos responsáveis
Nesse cenário, o senador Confúcio Moura foi empurrado para o centro da arena. Defendeu a concessão, presidiu comissão estratégica e assumiu posição pública — o que gera ônus político legítimo. O que não se sustenta é transformá-lo em culpado solitário. Confúcio foi crucificado politicamente por colegas que também representam o estado e tem responsabilidades, mas que, diante da pressão popular e da proximidade das eleições, optaram por empurrar a cruz para um só ombro. Não foi debate técnico nem correção de rota. Foi cálculo político do mais sórdido: sacrificar um nome forte para preservar projetos pessoais e limpar a própria biografia eleitoral. Mas o eleitor tudo vê e tudo enxerga. Eleições 2026 vai surpreender muita gente. O silêncio vai falar mais alto. O barulho, será apenas ruído.
Lavar as mãos também é escolha
Aqui a analogia religiosa não exagera. Todos estavam no pátio, todos acompanharam o processo. Mas, na hora da sentença, muitos preferiram lavar as mãos e gritar da multidão. Não por convicção — por conveniência.
Eleições: o tabuleiro começou a mexer
A disputa pelo Governo de Rondônia em 2026 já saiu dos bastidores. Adailton Fúria, prefeito de Cacoal, aparece bem avaliado e consolidado. O senador Marcos Rogério de Ji-Paraná (um pouquinho queimada na sua região), segue competitivo, com base eleitoral estruturada.
O nome que bagunçou o jogo
A surpresa atende pelo nome de Delegado Flori, prefeito de Vilhena. Em poucos dias, bem colocado nas pesquisas. Crescimento raro, daqueles que tiram o sono dos adversários. O Cone Sul resolveu entrar no jogo — e entrou com força e com apoio de um dos prefeitos mais bem avaliado, Léo Moraes.
Assembleia: promessa de renovação, risco de repetição
Na Assembleia Legislativa, deputados tradicionais sentem o desgaste enquanto novos nomes tentam ocupar espaço. Renovar pode ser necessário. Mudar práticas é obrigatório. O problema é que pode trocar 6 por meia dúzia.
Turismo: beleza não sustenta descaso
A Madeira-Mamoré fala sozinha
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré é história viva. O pôr do sol dispensa adjetivos. É patrimônio capaz de atrair turistas do Brasil e do mundo.
O problema começa no atendimento
Parte dos comerciantes dos quiosques age como se estivesse fazendo favor ao visitante. Falta preparo, sobra improviso. Turismo é serviço, não improvisação.
O primeiro contato define tudo
E tudo começa no Aeroporto Jorge Teixeira, nosso portal de entrada. Sem acolhimento, a experiência já nasce comprometida. Treinamento não é luxo — é estratégia.
Redes sociais: a esquizofrenia coletiva
Uma metáfora necessária
Não é diagnóstico clínico, é metáfora social: vivemos uma esquizofrenia coletiva nas redes.
O duplo comportamento
O mesmo cidadão que pede empatia lincha. O que se diz cristão crucifica. O que clama por justiça espalha desinformação.
O debate adoeceu
Não falta opinião. Falta responsabilidade. Enquanto confundirmos liberdade de expressão com licença para o ódio, o debate seguirá doente.
Fofoca da semana: quando o samba vira tribunal
Mistura que incomodou
O encontro de Paolla Oliveira e Virgínia Fonseca na mesma escola de samba foi o suficiente para a internet entrar em curto-circuito.
O preconceito disfarçado de opinião
Paolla virou símbolo da “tradição”. Virgínia, do “novo”. Como se o samba não fosse, desde sempre, mistura e contradição.
Quem não lidou bem com isso foi a plateia
A polêmica disse menos sobre elas e mais sobre nossa dificuldade de conviver com o diferente.
Peripécia final
Barulho não é debate
Rondônia não carece de temas — carece de maturidade. Entre pedágios, palanques, cruzes políticas, tribunais virtuais e pores do sol desperdiçados, seguimos confundindo indignação com responsabilidade.
Estrada, política e sociedade exigem direção
Sem isso, continuaremos erguendo cruzes — sempre para os outros — enquanto todos seguem responsáveis pelo caminho.
Até a próxima peripécia.




