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domingo, março 15, 2026
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Quando a dor bate à porta: a contradição moral do bolsonarismo

Por Édson Silveira

Nos últimos dias, o Brasil voltou a acompanhar notícias sobre o estado de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro. Independentemente de divergências políticas, qualquer pessoa minimamente civilizada deseja que ele se recupere e tenha pleno restabelecimento. A saúde e a vida humana devem estar sempre acima das disputas partidárias.

Mas é impossível ignorar uma contradição moral que salta aos olhos.

Durante a pandemia de COVID-19, que matou mais de 700 mil brasileiros, o país assistiu a uma postura política marcada por desprezo, ironia e indiferença diante da dor de milhares de famílias. Enquanto hospitais colapsavam, enquanto mães, pais e avós eram enterrados sem velório, o então presidente e parte expressiva de seus aliados tratavam a tragédia como exagero, histeria ou “mimimi”.

O país ouviu frases que entrarão para a história como símbolos de uma política desumanizada: “E daí?”, “Não sou coveiro”, “Todos vamos morrer um dia”.

Naquele momento, milhares de famílias brasileiras buscavam empatia. Queriam apenas um gesto de solidariedade de quem ocupava o cargo mais alto da República.

Esse gesto nunca veio.

Hoje, quando Bolsonaro enfrenta problemas de saúde, o cenário é diferente. Seus aliados pedem orações, compreensão e respeito. Nas redes sociais, multiplicam-se mensagens pedindo empatia, humanidade e solidariedade.

E aqui está o ponto central.

Empatia não pode ser um valor seletivo.

Humanidade não pode ser um sentimento partidário.

Compaixão não pode valer apenas quando a dor é a nossa.

A sociedade brasileira — especialmente as famílias que perderam entes queridos durante a pandemia — teve negado exatamente aquilo que hoje é solicitado em nome do ex-presidente: respeito diante do sofrimento humano.

Desejar saúde a Bolsonaro é o mínimo civilizatório.

Mas lembrar das vítimas da pandemia também é um dever moral e histórico.

Porque política pode ser disputa de ideias.

Mas a dor das famílias brasileiras nunca deveria ter sido tratada como instrumento de propaganda.

Talvez essa seja a grande lição que o Brasil ainda precisa aprender: a empatia verdadeira não aparece apenas quando a tragédia bate à própria porta.

Ela se manifesta justamente quando a dor é do outro.

Edson Silveira

Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO

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