Por Édson Silveira
Em Rondônia, algumas obras públicas parecem ter um talento curioso: quanto mais importantes, mais rapidamente aparecem “pais” de última hora. É quase um fenômeno da natureza política — a obra nasce em Brasília, cresce no orçamento federal, amadurece na execução… e, de repente, é adotada por quem até ontem fingia que ela nem existia.
O episódio do anel viário de Porto Velho é didático. O senador Marcos Rogério (PL-RO) surge na cena institucional para anunciar avanços e ordem de serviço como se estivesse apresentando um projeto de autoria própria. Tudo muito ensaiado, tudo muito conveniente — só esqueceram de um detalhe básico: dizer de onde vem a obra.
Talvez tenha sido distração. Acontece. Às vezes, no meio da empolgação da foto, a memória falha. Especialmente quando se trata de reconhecer que o investimento é do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — justamente o mesmo governo que é alvo de críticas diárias, ataques sistemáticos e oposição ferrenha.
Mas veja que curioso: para criticar, o governo existe.
Para fazer obra, ele simplesmente desaparece.
É uma espécie de mágica política: some o autor, fica o ator.
O problema não é fazer oposição. Isso é legítimo, faz parte do jogo democrático. O problema é praticar a oposição no discurso e o oportunismo na prática. Criticar com uma mão e colher com a outra — de preferência sem dar crédito a quem plantou.
A isso se dá um nome bastante conhecido: desonestidade intelectual.
Porque não se trata de desconhecimento. Não é falta de informação. É escolha. Escolha de construir uma narrativa conveniente, ainda que à custa da verdade. E quando a verdade vira detalhe descartável, o debate público deixa de ser sério e passa a ser apenas encenação.
O anel viário de Porto Velho não é uma obra qualquer. É uma intervenção estratégica, estruturante, que impacta diretamente a mobilidade urbana, a logística e o desenvolvimento econômico da região. Reduzi-la a um troféu de ocasião é diminuir a inteligência do povo e banalizar o investimento público.
Mas talvez essa seja a aposta: contar com o esquecimento, com a distração, com o eleitor desavisado.
Só que há um problema nesse cálculo.
O povo pode até não decorar discurso…
mas sabe reconhecer quando estão tentando vender como conquista própria aquilo que claramente não é.
No fim das contas, fica a lição mais simples — e mais ignorada:
Quem faz merece crédito.
E quem tenta se apropriar do que não fez… revela muito mais sobre si do que gostaria.
Por Edson Silveira, advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO.




