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quarta-feira, julho 29, 2026
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O presidente que governa — uma resposta à falsa comparação entre Lula e os tiranos da história

Por Edson Silveira
Advogado, administrador, professor e militante do PT/RO

Circula nas redes sociais um texto atribuído ao jornalista J. R. Guzzo, intitulado “O Tirano que Sorri”, no qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é comparado a Hitler, Stalin, Mao Tsé-Tung e Pol Pot.

A comparação, além de historicamente ofensiva às vítimas das maiores ditaduras e tragédias humanas do século XX, abandona qualquer compromisso com a proporcionalidade, com a verdade factual e com o debate democrático.

É perfeitamente legítimo criticar Lula, seu governo, seus ministros e suas políticas. O que não é aceitável é transformar divergência política em falsificação histórica, tratar decisões judiciais como “manobras” apenas porque contrariaram determinada corrente ideológica e chamar de tirania um governo escolhido pelo voto popular, fiscalizado pelo Congresso Nacional, pela imprensa, pelo Ministério Público, pelo Poder Judiciário e pelos órgãos de controle.

Vamos aos fatos.

1. Lula não chegou ao poder por tanques, golpes ou imposição

Hitler destruiu a democracia alemã, eliminou partidos, perseguiu opositores e comandou um regime responsável pelo Holocausto e por uma guerra mundial.

Stalin promoveu expurgos, deportações e execuções em massa.

Mao comandou um regime de partido único, sem eleições livres.

Pol Pot exterminou aproximadamente um quarto da população do Camboja.

Lula, ao contrário, participou de eleições livres, foi derrotado três vezes antes de conquistar a Presidência, venceu quatro eleições presidenciais — duas pessoalmente e duas apoiando Dilma Rousseff —, concluiu seus mandatos, transmitiu o cargo aos sucessores e retornou ao governo após vencer as eleições de 2022.

Comparar essa trajetória eleitoral com regimes de extermínio não é análise política. É banalização da tirania.

2. As condenações de Lula foram anuladas, não simplesmente “apagadas por amigos”

O texto afirma que Lula teria sido “libertado por manobras jurídicas promovidas por juízes escolhidos por ele próprio”.

A realidade jurídica é diferente.

O Supremo Tribunal Federal decidiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos relacionados ao tríplex do Guarujá, ao sítio de Atibaia e a outros casos. O Plenário confirmou a anulação das condenações por oito votos a três. Portanto, não se tratou da decisão isolada de um ministro nem de um favor pessoal. (Supremo Tribunal Federal)

Além disso, o STF reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no processo do tríplex. O sistema jurídico não admite que um julgamento seja considerado válido quando realizado por juiz incompetente ou parcial.

Dizer que Lula foi “absolvido por burocratas da toga” também é tecnicamente impreciso. As condenações foram anuladas porque os processos estavam contaminados por vícios que atingiam sua validade. Sem condenação penal válida e definitiva, ninguém pode ser tratado juridicamente como culpado.

Essa garantia não pertence apenas a Lula. Pertence a todo cidadão brasileiro.

3. Ministros do STF não são subordinados ao presidente que os indicou

O texto fala em “juízes escolhidos por Lula”, como se ministros do Supremo fossem empregados particulares do presidente.

A Constituição determina que os ministros sejam indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado Federal. Esse procedimento foi utilizado por Lula, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro.

A relação histórica de ministros indicados pelo STF mostra nomeações realizadas por presidentes de diferentes partidos e correntes políticas. (Supremo Tribunal Federal)

Na composição atual, inclusive, existem ministros indicados por Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Cristiano Zanin, por exemplo, foi sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça e aprovado pelo Plenário do Senado antes de tomar posse. (Notícias STF)

Ministros indicados por Lula já votaram contra interesses do próprio governo ou de aliados petistas. O mesmo ocorreu com ministros indicados por outros presidentes.

Discordar das decisões do STF é legítimo. Chamar o tribunal de “quartel ideológico” sem demonstrar juridicamente quais decisões violaram a Constituição é apenas retórica política.

4. É falso dizer que Lula governa sem democracia

No Brasil continuam funcionando:

* eleições periódicas;
* partidos de oposição;
* Congresso Nacional;
* governos estaduais e municipais de diferentes partidos;
* imprensa privada;
* redes sociais;
* Ministério Público;
* Polícia Federal;
* Tribunal de Contas da União;
* Poder Judiciário independente;
* manifestações públicas favoráveis e contrárias ao governo.

Diariamente, Lula é criticado em jornais, emissoras de televisão, rádios, portais e redes sociais. O próprio texto que o chama de tirano circula livremente, sem que seu autor ou seus compartilhadores sejam presos por criticarem o presidente.

Isso, por si só, demonstra a contradição central da acusação: numa verdadeira ditadura, dificilmente alguém publicaria impunemente um texto comparando o governante a Hitler ou Stalin.

Responsabilização por ameaça, difamação, tentativa de golpe, invasão de instituições ou incitação criminosa não significa prisão por opinião. Democracia não é ausência de leis; é liberdade com responsabilidade.

5. Algoritmos privados não são instrumentos de censura do governo Lula

A afirmação de que o governo “censura com algoritmos” inverte a realidade.

Os algoritmos das grandes redes sociais são controlados por empresas privadas, em sua maioria estrangeiras. São essas empresas que definem quais conteúdos recebem maior ou menor alcance, conforme seus modelos comerciais, regras internas e interesses econômicos.

Debater a responsabilidade das plataformas pela divulgação de fraudes, golpes, discursos de ódio, exploração infantil e campanhas coordenadas de desinformação não é instituir censura.

Nenhuma democracia séria pode aceitar que empresas bilionárias atuem acima das leis nacionais.

Liberdade de expressão não inclui direito de ameaçar, fraudar, caluniar, organizar atentados ou atacar a ordem democrática sem qualquer consequência.

6. O Brasil não está sendo economicamente destruído

O texto afirma que o trabalhador estaria sendo esmagado enquanto a economia seria arruinada. Os números oficiais não confirmam esse cenário apocalíptico.

O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 3,4% em 2024 e mais 2,3% em 2025. No primeiro trimestre de 2026, avançou 1,1% em relação ao trimestre anterior. (Agência de Notícias IBGE)

A taxa de desemprego ficou em 6,1% no primeiro trimestre de 2026, um patamar historicamente baixo para o mercado de trabalho brasileiro. (IBGE)

O rendimento domiciliar per capita atingiu nível recorde e a desigualdade caiu ao menor patamar da série iniciada em 2012. (Agência de Notícias IBGE)

Entre 2023 e 2024, aproximadamente 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza, segundo o IBGE. (Agência de Notícias IBGE)

É evidente que o país ainda enfrenta inflação, juros elevados, endividamento das famílias e dificuldades estruturais. Nenhum governo responsável pode esconder esses problemas. Mas reconhecer desafios é completamente diferente de inventar uma economia em ruínas.

7. A política de valorização do salário mínimo foi retomada

Uma das primeiras medidas do novo governo foi restabelecer a política de valorização real do salário mínimo, abandonada nos anos anteriores.

O salário mínimo voltou a ser reajustado considerando a inflação e o crescimento econômico, permitindo aumento acima da mera reposição inflacionária.

Essa política beneficia diretamente trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários de programas vinculados ao piso nacional.

Quem mantém o pobre “escravo” não promove valorização real de sua renda. Quem deseja reduzir a dependência social precisa combinar emprego, salário, educação, qualificação profissional, crédito e proteção social — justamente a lógica das políticas recuperadas pelo governo Lula.

8. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome

O texto utiliza a fome como recurso retórico para acusar Lula de tirania. Mas ignora um dos resultados sociais mais relevantes do período recente.

Em 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura confirmou que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, o que significa que menos de 2,5% da população estava em situação de subalimentação crônica. (FAOHome)

O resultado decorre de um conjunto de políticas, entre elas:

* reconstrução e ampliação do Bolsa Família;
* retomada do Conselho Nacional de Segurança Alimentar;
* valorização do salário mínimo;
* fortalecimento da alimentação escolar;
* incentivo à agricultura familiar;
* programas de aquisição de alimentos;
* geração de empregos;
* aumento real da renda.

Ainda existem brasileiros passando fome, e isso deve continuar sendo enfrentado. Entretanto, dizer que Lula produz fome como método de dominação contradiz frontalmente os indicadores reconhecidos por organismos internacionais.

9. O Bolsa Família não escraviza: protege famílias em situação de vulnerabilidade

O Bolsa Família não é um favor pessoal do presidente nem um instrumento de submissão eleitoral.

É uma política pública de transferência de renda que ajuda famílias a manter alimentação, crianças na escola, acompanhamento de saúde e vacinação.

A ideia de que pessoas pobres preferem viver de benefícios a trabalhar é uma visão preconceituosa e desconectada do valor real recebido. Milhões de beneficiários trabalham, mas possuem renda insuficiente para sustentar suas famílias.

Proteção social não substitui emprego. Ela impede que a fome destrua uma família enquanto seus integrantes procuram trabalho, estudam ou enfrentam períodos de vulnerabilidade.

Escravidão é negar oportunidades. Cidadania é criar condições para que ninguém seja condenado à fome por ter nascido pobre.

10. O Minha Casa, Minha Vida voltou a ser prioridade

O governo retomou o Minha Casa, Minha Vida, ampliou as faixas de atendimento e criou condições de financiamento para diferentes níveis de renda.

O programa passou a atender inclusive famílias de classe média com renda de até R$ 13 mil, dentro das regras específicas de financiamento habitacional. (Caixa Econômica Federal)

Moradia digna não é mecanismo de dominação. É direito social previsto constitucionalmente.

Cada casa entregue significa uma família saindo do aluguel, da ocupação precária ou de uma área de risco. Significa emprego na construção civil, movimentação do comércio e melhoria das condições de vida.

11. O Novo PAC representa investimento, infraestrutura e desenvolvimento

O Novo Programa de Aceleração do Crescimento prevê aproximadamente R$ 1,9 trilhão em investimentos, envolvendo recursos públicos e privados destinados a infraestrutura, saúde, educação, habitação, mobilidade, saneamento, energia e inclusão digital. (Serviços e Informações do Brasil)

Pode-se debater a velocidade das obras, as prioridades escolhidas e a eficiência dos investimentos. Isso faz parte da democracia.

Mas não é razoável chamar de destruição nacional um programa que financia estradas, escolas, hospitais, moradias, redes de água, esgoto, energia e transporte público.

12. Emendas parlamentares não são criação de Lula

O texto acusa o governo de domesticar o Congresso “a golpes de emendas bilionárias”.

As emendas parlamentares estão previstas no sistema orçamentário brasileiro e ganharam enorme força especialmente com as emendas impositivas e com o chamado orçamento secreto, estruturado durante o governo anterior.

Atualmente, grande parte desses recursos é controlada pelo próprio Congresso, e não livremente pelo presidente da República.

É legítimo criticar o volume das emendas, exigir transparência, rastreabilidade e critérios técnicos. Mas atribuir todo esse sistema exclusivamente a Lula é ignorar a evolução legislativa e a autonomia do Parlamento na definição do orçamento.

13. Regulação econômica não significa perseguição aos empreendedores

Todo Estado moderno regula relações econômicas, ambientais, trabalhistas, sanitárias, tributárias e de consumo.

Sem regulação, o pequeno empresário ficaria ainda mais vulnerável diante de monopólios, bancos, grandes redes varejistas e conglomerados internacionais.

O debate correto deve ser sobre qualidade, simplicidade e justiça das regras, não sobre a eliminação do Estado.

O governo Lula também retomou políticas de crédito, renegociação de dívidas, incentivo à indústria, apoio ao microempreendedor, investimentos públicos e fortalecimento de bancos públicos.

Criticar burocracia excessiva é justo. Afirmar que toda regulação existe apenas para beneficiar “amigos do poder” exige provas, e não insinuações.

14. Inflação e juros não são determinados apenas pelo presidente

A inflação possui múltiplas causas: preços internacionais, câmbio, eventos climáticos, oferta de alimentos, combustíveis, energia, demanda interna e conflitos internacionais.

Já a taxa básica de juros é definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, instituição que possui autonomia legal.

Portanto, é contraditório atribuir diretamente a Lula juros definidos por uma autoridade monetária autônoma, especialmente quando o próprio presidente frequentemente critica seu nível elevado.

O governo pode ser cobrado pela política fiscal e pelas medidas econômicas que adota. Mas transformar todos os fenômenos econômicos em atos pessoais de um suposto tirano é abandonar qualquer análise séria.

15. Lula não foi responsável pessoalmente por “todos os escândalos da história”

Casos de corrupção ocorridos nos governos petistas devem ser investigados e seus responsáveis, condenados quando houver provas válidas e respeito ao devido processo legal.

Entretanto, não existe decisão judicial válida que reconheça Lula como chefe do “maior esquema de corrupção da história”.

A corrupção brasileira não nasceu em 2003, não pertence a um único partido e não terminou com a saída do PT do governo.

Empresários, funcionários públicos e políticos de diversas legendas foram investigados. Muitos casos revelaram problemas estruturais no financiamento político, nas contratações públicas e na relação entre empresas e Estado.

Combater a corrupção exige instituições fortes, transparência, controle público e devido processo legal — não condenações coletivas baseadas em preferência partidária.

16. Formação acadêmica não é requisito para capacidade política

O texto tenta desqualificar as homenagens recebidas por Lula mencionando sua escolaridade.

Lula deixou a escola formal ainda jovem porque precisou trabalhar. Tornou-se metalúrgico, dirigente sindical, fundador de partido, deputado constituinte e presidente da República.

A falta de diploma universitário não significa falta de inteligência, capacidade política, conhecimento da realidade ou competência para governar.

As homenagens internacionais e acadêmicas recebidas por Lula decorrem de sua trajetória política, de sua atuação diplomática e dos resultados sociais associados aos seus governos, não de uma pretensão de apresentá-lo como escritor ou acadêmico.

Ridicularizar alguém por sua origem pobre ou escolaridade limitada diz muito mais sobre o preconceito de quem ataca do que sobre a capacidade de quem é atacado.

17. Lula não mantém o pobre na pobreza: os indicadores mostram mobilidade social

Durante os governos Lula ocorreram:

* crescimento real do salário mínimo;
* expansão das universidades federais;
* criação e interiorização dos institutos federais;
* criação do ProUni;
* ampliação do Fies;
* políticas de cotas;
* expansão do acesso à energia elétrica;
* fortalecimento da agricultura familiar;
* criação de empregos formais;
* ampliação do crédito;
* redução da pobreza;
* programas de habitação popular;
* retirada do Brasil do Mapa da Fome.

É possível discutir limitações, erros e resultados de cada política. O que não se sustenta é afirmar que a finalidade delas seria manter pessoas escravizadas.

Educação, renda, emprego e moradia aumentam a autonomia do cidadão. Não a diminuem.

18. A verdadeira anestesia é substituir fatos pelo medo

O texto fala em “anestesia democrática”, mas utiliza exatamente uma técnica de manipulação emocional: compara um adversário eleito democraticamente aos maiores assassinos da história, apresenta interpretações como fatos e descreve políticas sociais como instrumentos de escravidão.

Essa narrativa não pretende provocar reflexão. Pretende provocar medo.

Chamar um governante de Hitler ou Stalin dispensa o autor de discutir orçamento, emprego, renda, obras, saúde, educação, meio ambiente e relações internacionais. Afinal, se o adversário é apresentado como um monstro absoluto, qualquer diálogo se torna desnecessário.

É assim que a intolerância política cresce.

Lula pode e deve ser criticado — mas com honestidade

Nenhum presidente está acima da crítica. Lula comete erros, toma decisões discutíveis, enfrenta contradições em sua base parlamentar e deve prestar contas de cada ato de seu governo.

Mas democracia exige que as críticas sejam feitas com fatos, argumentos e proporcionalidade.

Comparar Lula a Hitler, Stalin, Mao e Pol Pot não fortalece a oposição. Apenas rebaixa o debate e desrespeita a memória de milhões de pessoas assassinadas por regimes totalitários.

Lula não governa com campos de concentração, partido único, polícia política, fechamento do Congresso ou eliminação física de adversários.

Governa sob a Constituição de 1988, com oposição atuante, imprensa livre, Congresso independente, tribunais funcionando e eleições regulares.

E governa apresentando resultados que podem ser medidos: crescimento econômico, desemprego em nível historicamente baixo, aumento da renda, redução da pobreza, retomada dos investimentos, reconstrução das políticas sociais e a nova saída do Brasil do Mapa da Fome.

A história certamente julgará Lula, como julga todos os governantes.

Mas a história séria, construída sobre documentos e fatos, jamais confundirá um presidente eleito democraticamente com os responsáveis por alguns dos maiores genocídios e regimes totalitários da humanidade.

A crítica é democrática.

A mentira não.

A divergência é legítima.

A falsificação histórica não.

E defender a verdade não é idolatrar Lula. É defender o direito do povo brasileiro de debater seu país sem ser manipulado pelo ódio, pelo preconceito e pela desinformação.

Edson Silveira
Advogado, administrador, professor e militante do PT/RO
Artigo de opinião de inteira responsabilidade do autor.

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