Por Édson Silveira
Em Rondônia, o discurso contra a corrupção parece admitir uma cláusula de conveniência: vale contra o adversário; quando alcança o próprio palanque, precisa ser interpretado com bastante compreensão.
A hipocrisia aparece quando políticos que carregam pendências com a Justiça apontam o dedo para Lula e disparam a frase pronta: “Lula ladrão”. Para examinar a própria trajetória, exigem processos completos, provas, recursos e decisões definitivas. Para julgar o adversário, bastam duas palavras e um microfone.
É uma extraordinária capacidade de adaptação. Quando a acusação atinge o outro, o sujeito vira juiz. Quando chega à sua porta, descobre a Constituição, o devido processo legal e a presunção de inocência. Tudo muito correto — desde que esses direitos também sejam reconhecidos aos adversários.
Investigação não equivale a condenação, e pendência judicial não comprova crime. Mas esse princípio não pode funcionar como um guarda-chuva reservado aos amigos. Quem exige responsabilidade ao falar de si precisa demonstrar a mesma responsabilidade ao acusar os outros.
Apoiar Flávio Bolsonaro é uma escolha política. Usar essa escolha como certificado de superioridade moral já exige uma generosa suspensão do senso crítico. Nenhum palanque concede absolvição coletiva. E gritar contra Lula não responde a uma única pergunta sobre a própria prestação de contas.
O episódio dos sigilos tornou essa cobrança ainda mais necessária. Lula desafiou Flávio a autorizar a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dos dois e de seus familiares. Flávio apresentou 19 exigências adicionais, aceitas por Lula. Em 22 de outubro, as campanhas assinaram um acordo, embora permanecessem divergências sobre a entrega dos dados. O eleitor tem o direito de cobrar o cumprimento do compromisso de ambos. Dezenove exigências depois, já pode pedir documentos em vez de discursos. (noticias.uol.com.br, poder360.com.br, www1.folha.uol.com.br)
Em Rondônia, essa cobrança deveria alcançar os aliados de Flávio Bolsonaro. Que processos enfrentam? De que são acusados? Houve condenação, absolvição ou arquivamento? Qual foi o desfecho? Quem se apresenta como fiscal da honestidade deveria responder com tranquilidade. A fotografia ao lado do candidato preferido não substitui uma explicação.
Dinheiro desviado da saúde significa atendimento que falta. Na educação, condições de ensino comprometidas. Na infraestrutura, obras que deixam de servir à população. Nenhum desses prejuízos desaparece porque o responsável veste verde e amarelo ou faz um discurso inflamado sobre patriotismo.
O eleitor pode rejeitar Lula, apoiar Flávio e defender suas convicções. Mas precisa perceber quando sua indignação está sendo usada por quem cobra uma limpeza geral enquanto pede que ninguém olhe debaixo do próprio tapete.
Combater a corrupção exige disposição para fiscalizar também os amigos. Sem isso, a frase “Lula ladrão” vira apenas um recurso conveniente para encerrar perguntas que alguns moralistas de palanque preferem não responder.
Corrupção de estimação continua sendo corrupção. E hipocrisia não vira virtude só porque aprendeu a gritar.
Édson Silveira é advogado, administrador, professor aposentado e analista político.




