Por Édson Silveira
A nova temporada da política em Rondônia já estreou. O roteiro é conhecido, os personagens são os mesmos e o final, infelizmente, tende a ser igual. Mudam apenas os figurinos, as lives nas redes sociais e o nível de cinismo. Depois da Energisa, agora chegou a vez do pedágio na BR-364 virar palanque ambulante.
Faltam poucos meses para o início oficial da campanha de 2026 e, como num passe de mágica, surgem os “xerifes do povo”, os “salvadores da rodovia” e os “especialistas em contrato de concessão” que, curiosamente, não apareceram quando era a hora de agir. É impressionante como alguns políticos têm o dom de descobrir os problemas exatamente no período eleitoral. Antes disso, estavam ocupados… talvez escolhendo filtros para vídeos indignados.
O mais curioso é que a mesma bancada federal de Rondônia que hoje grita, protesta, grava vídeos e promete “acabar com o pedágio” foi, no mínimo, omissa quando o processo de concessão da BR-364 foi conduzido pelo governo anterior, que tinha à frente da infraestrutura o atual governador de São Paulo. Naquele momento, silêncio absoluto. Nenhuma mobilização real, nenhuma pressão efetiva, nenhum enfrentamento político sério. Apenas a velha estratégia: esperar a bomba estourar e depois posar de herói.
Agora, com a cobrança autorizada, a culpa é convenientemente transferida para o governo do presidente Lula. É o novo esporte nacional: terceirizar responsabilidade e colher votos. A lógica é simples: quando o contrato nasce, ninguém aparece; quando a cobrança começa, surgem os defensores do povo. Um milagre eleitoral que se repete a cada quatro anos.
A verdade é que a concessão foi construída, estruturada e encaminhada antes. Os parlamentares de Rondônia sabiam, tinham acesso às informações e poderiam ter pressionado, debatido, mobilizado a sociedade e exigido melhores condições. Não fizeram. Preferiram a zona de conforto. Afinal, enfrentar grandes interesses não rende curtidas nem financiamento de campanha.
O resultado está aí: pedágios elevados, baixa duplicação e impacto direto no custo de vida da população. Porque não existe pedágio “para quem usa”. Existe pedágio para todos. O frete sobe, o preço do arroz sobe, o remédio sobe, o serviço sobe. Quem não pisa na BR-364 também paga a conta.
Mas a hipocrisia não para. Agora surgem propostas mirabolantes: trocar pedágio por IPVA, renegociar tudo com um passe de mágica, reduzir tarifas por decreto. É a velha política do “se eu for eleito, resolvo”. O mesmo discurso que nunca resolve nada.
O mais grave é que parte da população ainda cai nessa encenação. A indignação seletiva é alimentada por discursos fáceis, simplistas e emocionalmente apelativos. Não se discute o contrato, não se analisa a legalidade, não se apresenta solução técnica. Apenas gritos, vídeos e promessas.
Rondônia precisa superar essa fase infantil da política. Precisamos cobrar coerência, responsabilidade e coragem. Quem foi omisso precisa admitir. Quem errou precisa reconhecer. E quem quer governar precisa apresentar soluções reais, não espetáculos digitais.
A nova novela do pedágio já começou. Mas o final pode ser diferente, se o eleitor deixar de ser plateia e passar a ser protagonista. Porque, no fim das contas, a maior concessão não é da rodovia. É da consciência política.
Edson Silveira, advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO.




