Por Édson Silveira
Nikolas Ferreira resolveu caminhar até Brasília. Uma longa marcha, carregada de suor, selfies e palavras ocas. Um espetáculo cuidadosamente encenado para as redes sociais, onde o sacrifício físico tenta compensar a completa ausência de explicações políticas.
Quando faltam argumentos, sobram quilômetros
O deputado prefere impor dor aos próprios pés a enfrentar os fatos. Prefere a narrativa do mártir à obrigação do representante público. Caminha lentamente, não por coragem, mas porque fugir da verdade exige tempo e encenação.
Passos firmes, silêncio conveniente
Durante toda a caminhada, nenhuma palavra sobre o que realmente importa.
Nada sobre as denúncias envolvendo a Igreja da Lagoinha, espaço religioso convertido em plataforma de poder político, associada a escândalos relacionados ao INSS. Talvez o problema não seja a distância até Brasília, mas a distância entre o discurso moralista e a realidade.
Nenhuma explicação sobre o uso sistemático de suas redes sociais como instrumento de desinformação, espalhando mentiras, distorções e pânico moral contra o governo eleito. O deputado que vive gritando contra a “censura” nunca demonstrou preocupação com o direito da sociedade à informação verdadeira.
E, como já virou regra, absoluto silêncio sobre o dinheiro encontrado no apartamento do deputado Sóstenes Cavalcante, aliado estratégico, correligionário fiel e liderança do mesmo campo político que só descobre a ética quando o escândalo envolve adversários.
Quando o problema é interno, a indignação entra em recesso parlamentar.
A autocrítica que não caminha, não corre e não existe
O mais revelador dessa romaria política é aquilo que não aparece em nenhum trecho do percurso.
Nenhum reconhecimento de que houve tentativa de golpe de Estado.
Nenhuma admissão de que Jair Bolsonaro e a extrema direita cometeram crimes contra a democracia.
Nenhuma palavra sobre o ataque às urnas, o incentivo ao caos institucional e a sabotagem da confiança pública.
Nenhum pedido de desculpas ao povo brasileiro.
Marcham em nome da “liberdade”, mas fogem da responsabilidade.
Atacam o Judiciário, mas se escondem da verdade.
Clamam por justiça apenas quando ela não os alcança.
Liberdade, nesse discurso, virou sinônimo elegante de impunidade.
Quando a política vira teatro e o cinismo vira método
Essa caminhada não é resistência. É marketing político de baixo custo moral. Uma peregrinação roteirizada para transformar vitimismo em virtude e cansaço físico em certificado ético.
Nikolas Ferreira não caminha por justiça. Caminha por engajamento. Cada passo rende curtidas. Cada bolha no pé vira narrativa. Cada silêncio é cálculo político.
O Brasil não precisa de deputados peregrinos. Precisa de representantes que tenham coragem de dizer a verdade, reconhecer erros, romper com o extremismo e pedir desculpas quando atacam a democracia.
Caminhar cansa.
Mas nada cansa mais do que fingir ignorância diante de fatos conhecidos.
E isso, definitivamente, não se resolve a pé.
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual do PT/RO e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO



