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quinta-feira, março 12, 2026
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A seca histórica na Amazônia e o colapso do rio Madeira: reflexões sobre uma catástrofe anunciada (e ignorada)

Por Édson Silveira (*)

A Amazônia, nosso pulmão do mundo, lar da biodiversidade e… cenário de um desastre ambiental que parece ser tratado como “apenas mais um dia quente”. Em Porto Velho, capital de Rondônia, o rio Madeira, que deveria ser um majestoso curso d’água, agora mais parece um filete, uma piada triste da natureza em resposta às nossas ações – ou à falta delas.

Parece até o deserto do Saara mas é o Rio Madeira com uma das maiores secas da história

A situação chegou a um ponto em que os pilares da ponte sobre o rio Madeira, aqueles que normalmente ficam submersos, hoje estão totalmente expostos, como que gritando: “Alô, alguém aí? Será que não estão vendo o que está acontecendo?” Sim, estamos vendo, mas parece que os responsáveis por fazer algo a respeito preferiram fechar os olhos, talvez esperando que a próxima chuva (ou milagre) resolva tudo.

E se você acha que a seca é o único problema, espere até sentir o calor. Temperaturas de 40°C, com sensação térmica de 45°C, estão derretendo até as ideias, enquanto os governos se mantêm refrescados em seus escritórios com ar-condicionado. Para a população, o conselho é simples: não derretam. Ah, e se puderem, façam isso sem aumentar o consumo de energia elétrica, porque a conta vai subir e os reservatórios de água vão continuar caindo.

Claro, esse colapso não veio do nada. Décadas de desmatamento desenfreado, ganância por madeira e um amor mal-disfarçado pelo garimpo ilegal têm suas digitais por todo lado. Quem precisa de árvores quando podemos transformar a floresta em fumaça? Aliás, as queimadas estão a todo vapor – literalmente. É como se a Amazônia tivesse entrado no modo autodestrutivo e ninguém achou o botão de desligar. Quanto mais seca, mais fácil é para o fogo consumir o que resta. E se você não viu uma fumaça densa cobrindo o céu ultimamente, bem, aproveite, porque a próxima temporada de “nuvem cinza” deve estar logo ali.

No Rio Madeira e em seus afluentes – Machado, Candeias e Jamary –, a vida aquática também está com os dias contados. A morte dos peixes é só o começo. Com a água ficando quente e rasa, eles estão, literalmente, morrendo na praia. Para as comunidades que dependem da pesca, a situação não é catastrófica – é só o fim de sua subsistência. Mas claro, quem se importa? O mercado está cheio de peixe congelado vindo de outros lugares, certo? Sem falar que, com o rio secando, a chance de pegar alguma coisa além de uma garrafa plástica já estava pequena.

E por falar em desastre, não podemos esquecer do queridinho das manchetes: o garimpo clandestino. Porque nada melhor do que cavar mais fundo na ferida, né? A mineração ilegal está literalmente “jogando lama no ventilador”, contaminando os rios com mercúrio e degradando tudo ao seu redor. Mas quem vai reclamar, não é? Com tanto ouro saindo da terra, o que é uma dose a mais de poluição para quem já respira fuligem?

Enquanto isso, os governos – federal, estadual e municipal – parecem estar numa grande reunião de brainstorming eterno. Medidas mitigadoras? Planos de ação? Soluções reais? Nada, apenas o velho “deixe como está para ver como fica”. E vai ficando, mas pior. Quando se questiona onde estão as soluções, a resposta parece ser sempre um enigma digno de novela: “Estamos estudando a situação”. Ah, claro, vão terminar o estudo quando? Quando o rio for uma trilha seca no meio da floresta?

A BR-319, a estrada que liga Manaus a Porto Velho, é outro ponto de discussão. Há quem diga que a pavimentação resolverá muitos problemas, mas será que já pensaram no desmatamento extra que essa estrada pode provocar? Afinal, por que só secar os rios, se podemos derrubar mais árvores? No meio disso tudo, seguimos sem um plano sério para equilibrar progresso e preservação ambiental.

E, como se fosse o gran finale dessa ópera trágica, estamos em plena campanha eleitoral! No próximo dia 06 de outubro, vamos escolher nossos vereadores e prefeito. Parece até ironia do destino termos uma eleição enquanto a cidade arde e os rios secam. Fica a dica: antes de apertar aquele botão, pense bem se seu candidato tem algum compromisso com a pauta ambiental – ou se ele acha que “meio ambiente” é apenas um obstáculo para “desenvolvimento”. Porque, sinceramente, votar em quem acha que garimpo é solução ou que árvore só serve para lenha pode fazer a diferença entre ter um futuro e, bem… não ter.

Porto Velho, assim como o restante da Amazônia, está à mercê de um ciclo de destruição. O que os moradores podem fazer? Primeiro, exigir ações reais. Não é pedir demais que os representantes eleitos – em qualquer nível de governo – saiam da inércia e parem de prometer soluções mágicas. A pressão popular é uma arma poderosa. E se você quiser mesmo fazer a diferença, organize-se com sua comunidade, denuncie atividades ilegais, e principalmente, não se deixe calar. A Amazônia precisa de nós, porque os que deveriam cuidar dela parecem ter outras prioridades.

No final das contas, se não fizermos algo agora, a seca que hoje devasta o Rio Madeira pode ser só o começo. E quem sabe o que virá a seguir? Vamos esperar para ver?

Porto Velho RO, 12 de setembro de 2024.

(*) Édson Silveira é vice-presidente estadual do PT/RO

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