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sábado, dezembro 20, 2025
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Ao Orgulho com muito Amor

 

(*) Por Marília “Guerreira” Uchôa

Ao entrar no Residencial Orgulho do Madeira pela primeira vez, no extremo leste de Porto Velho, pensei estar em um lugar novo, recém criado e cheio de vida. A sua grandeza (são 4.000 unidades residenciais, entre casas e apartamentos) e o seu chão incrivelmente plano me passou a ideia de que Porto Velho se iniciava ali, à beira da floresta que se ergue ao fundo. Entendi, naquele momento, que “só ouvi falar” do Orgulho é pouco para o que aquele mundo de coisas representa.

Ah! E como se fala do Orgulho! Um lugar entregue aos seus moradores há pouco mais de 5 anos é pauta de conversas em todos os lugares (bem menos nos órgãos públicos, diga-se) e, pasmem, todo mundo acha que conhece a realidade de quem mora no maior conjunto habitacional popular do estado de Rondônia.

Comparo o Orgulho à Rocinha, no Rio de Janeiro, comunidade mística, que superou o estigma da miséria e da violência que carregou consigo durante anos e produz exemplos e referências para o país todo. Na Rocinha, como no Orgulho, o valor nãos está nas coisas, nos prédios, nas mansões… está, sim, nas pessoas, que querem viver a vida em plenitude, livre, sem as amarras que lhe quiseram impor. E aqui, como lá, as mulheres e os jovens têm papel importante na construção do futuro.

Esta sede por esse tipo de vida percebi nas primeiras conversas com os moradores, ou melhor, com as moradoras que encontrei, pois elas pululam pelas ruas, pelos becos que existem entre os edifícios, sozinhas ou com os seus pequenos, curiosas e atentas. Não há ali uma sequer que não busca superar os limites que a vida – e os homens – quer lhe impor no dia a dia. Estes limites são ampliados no período noturno, quando sobras caem nos olhos de quem tem filhos(as), amigos(as) e maridos/esposas ainda não recolhidos(as) ao lar. No Orgulho, a noite não tem a candura de uma criança.

A missão que me levou àquele lugar me pareceu mais atraente a cada dia que passava. O ambiente caótico já estava instalado, ocupado por quem achava que o seu modo de fazer as coisas era o melhor para aquela gente, escorado no aceite de um ou outro que compartilhava o mesmo pensar. Mas, notei nos primeiros dias, havia resistência, contradição, busca por outros caminhos e inquietações não contidas.

Esses sentimentos eram tão latentes quanto as palavras que entoávamos no nosso dia-a-dia, ao realizar nosso trabalho. Não, não podíamos nos limitar às palavras, elas acabavam em si, eu pensei olhando para o céu do fim da tarde. Haveríamos de ir além. O Orgulho – e sua gente lutadora – não poderia ser refém de projetos que lhe surrupiassem o sonho da casa própria e o transformasse em moedas podres e volátil. O sonho da casa própria era uma realidade, uma conquista. Dela, haveriam de vir outras: profissionalização da mão de obra, apoio ao empreendedorismo, acesso ao crédito, fomento à cultura e políticas para a juventude.

Anos depois, a ausência de quem não poderia se ausentar ainda existe (poder público), mas as visitas se encurtaram, o espaço se divide por três, não há mais a hegemonia de um lado só (o lado mau) e quem não participava do jogo já crer ser possível jogar (quem de fato importa). E, no tabuleiro plano do Orgulho, as pessoas que enchem seus espaços de esperança – e de inquietações – querem jogar o jogo da liberdade.

(*) Marília “Guerreira” Uchoa, 39 anos, graduanda em Direito, pastora evangélica,
Lash designer

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