Por Édson Silveira
A guerra contra o Irã entra no seu segundo dia e o mundo acompanha, quase em tempo real, mais um capítulo da política internacional baseada na força. Estados Unidos e Israel anunciam a eliminação de 48 autoridades iranianas, incluindo o líder supremo, como se fosse um troféu estratégico. Mas, enquanto os governos exibem resultados militares, quem sofre é a população civil, que já enfrenta bombardeios, medo e incerteza.
O discurso oficial fala em segurança e prevenção. Na prática, bairros são destruídos, famílias se refugiam e hospitais se sobrecarregam. Não existe tecnologia capaz de separar poder político de vidas comuns. A guerra nunca atinge apenas governos. Ela atinge pessoas.
O mais revoltante é a naturalização dessa tragédia. Mortes iranianas são apresentadas como números, quase um boletim técnico. Quando há vítimas do outro lado, a cobertura ganha nome, rosto e emoção. Essa diferença revela uma hierarquia implícita de vidas humanas. Como se algumas merecessem luto e outras fossem apenas estatística.
A ONU, mais uma vez, demonstra sua fragilidade. Reuniões de emergência, discursos e apelos por diálogo não conseguem impedir a escalada. O sistema internacional parece incapaz de conter as grandes potências quando estas decidem agir. O direito internacional se transforma em formalidade.
O que está verdadeiramente em jogo vai além da retórica nuclear. É poder regional, influência global e controle energético. O Estreito de Hormuz volta ao centro das tensões, e o impacto econômico já começa a atingir trabalhadores no mundo inteiro. O preço do petróleo sobe, a inflação ameaça e as populações mais pobres pagam a conta.
Essa guerra também tem dimensão política interna. Conflitos externos fortalecem lideranças, desviam o foco de crises e reorganizam disputas de poder. A história recente mostra que esse tipo de escalada raramente traz estabilidade. Ao contrário, gera radicalização e novos ciclos de violência.
O imperialismo moderno não precisa mais de discursos sofisticados. Ele se apresenta com a simplicidade brutal das bombas. A política externa de Donald Trump retoma a lógica da força como instrumento de reorganização global. Não se trata apenas de impedir armas nucleares. Trata-se de hegemonia.
Se o mundo não reagir, a tragédia tende a se aprofundar. O desafio do século XXI é romper com a ideia de que a guerra é solução. Nenhum objetivo geopolítico justifica transformar civis em danos colaterais.
Enquanto líderes celebram vitórias militares, a pergunta mais urgente permanece: quantas vidas inocentes ainda serão sacrificadas até que a diplomacia volte a ser prioridade?
Edson Silveira, advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO.




