O governo federal trabalha com a possibilidade de um ‘El Niño’ de forte intensidade em 2026 e já mobiliza órgãos técnicos para acompanhar os possíveis impactos do fenômeno climático. Avaliações internas apontam uma probabilidade de cerca de 70% de que o evento alcance níveis fortes ou até extrafortes, com potencial para provocar alterações significativas no regime de chuvas e temperaturas em diversas regiões do país.
Apesar das projeções, especialistas do governo afirmam que o cenário ainda está em evolução. A expectativa é que as previsões ganhem maior precisão a partir de julho, quando novos dados meteorológicos permitirão uma avaliação mais detalhada sobre a intensidade e os efeitos do fenômeno.
As preocupações constam em documento encaminhado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) à Casa Civil em 19 de maio. O órgão projeta a ocorrência de ondas de calor mais intensas ao longo do ano e avalia que o comportamento climático pode se aproximar do observado entre 2023 e 2024, período marcado por um dos episódios mais fortes de El Niño dos últimos anos.
Segundo o Cemaden, os meses de setembro e outubro podem concentrar os efeitos mais severos. A combinação entre altas temperaturas e redução das chuvas tende a prolongar períodos de estiagem e aumentar a pressão sobre ecossistemas considerados estratégicos para o país.
Entre os principais pontos de atenção estão a Amazônia e o Pantanal. O agravamento da seca pode ampliar o risco de incêndios florestais nesses biomas, além de gerar impactos ambientais e consequências para a saúde da população exposta à fumaça e às condições extremas de calor.

No documento enviado ao governo, o órgão afirma: “Nas regiões Norte e Nordeste, a tendência é de redução das chuvas e aumento das temperaturas, o que favorece períodos de estiagem mais severos e maior pressão sobre os recursos hídricos. Já nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, o fenômeno pode comprometer parte da estação chuvosa, acompanhado de altas temperaturas, afetando a recuperação dos reservatórios hidrelétricos e elevando o risco hidrológico”.
Enquanto parte do país pode enfrentar escassez de chuvas, o Sul aparece no radar das autoridades por motivo oposto. Os técnicos avaliam que a região poderá registrar precipitações acima da média, elevando o risco de enchentes, alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra em áreas vulneráveis.
O relatório destaca que “anomalias positivas em áreas onde os acumulados absolutos já são elevados podem produzir efeitos relevantes sobre bacias hidrográficas, sistemas urbanos, encostas e áreas vulneráveis”.
Diante desse cenário, o Cemaden apresentou seis recomendações ao governo federal. Entre elas estão o fortalecimento do monitoramento de secas e chuvas, a manutenção plena da rede de radares meteorológicos e a reavaliação de áreas consideradas críticas, como encostas ocupadas, margens de rios e comunidades isoladas.
O órgão também defende maior integração entre União, estados e municípios para ações de monitoramento, análise de risco, emissão de alertas, comunicação pública e resposta a desastres. Paralelamente, o governo federal vem realizando reuniões com ministérios e equipes técnicas para preparar medidas preventivas.
Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño em formação pode estar entre os mais intensos das últimas três décadas.
DCM
Tragédia anunciada: Porto Velho poderá ter pior seca das últimas décadas



