Ou o município de Rondônia não aprendeu a lidar com a liberdade de escolha ou está cercada de aventureiros hipnóticos e ilusionistas
O fato de Candeias do Jamari (RO) ter convivido nos últimos 10 anos com alta rotatividade de prefeitos não é desconhecido por ninguém. Mas, dois aspectos chamam a atenção para quem analisa o ambiente político local com o mínimo de isenção e algum critério. O primeiro deles é o fato de que os eleitores conhecem os que elegem, pois ou são agentes políticos locais ou têm suas atividades políticas na capital Porto Velho, que fica a 20 quilômetros de distância e a rotina das duas cidades se mistura. O segundo aspecto é que a repetição dos equívocos não cessa, por mais que sejam chamados a praticar as escolhas que fazem.
Mas, na última eleição ocorrida no domingo passado, 9, um outro elemento protagonizou o pleito municipal: a indiferença ao voto. Isso mesmo! O eleitorado de Candeias do Jamari não acredita que a solução para os problemas administrativos, éticos e morais do município passe por eleições, sejam elas quantas forem. Explico.
Dos 18.372 eleitores aptos a votarem no município de Candeias do Jamari, 7.520 não compareceram às urnas, ou 40,93% do total. A chapa vencedora foi “eleita” com 7.732 votos, ou 74,47% dos 10.852 votos válidos. Entretanto, se somarmos o número de abstenções (7.520) mais os votos em brancos (221) e votos nulos (248), teremos 7.989 votos, portanto, bem mais do que os destinados aos vencedores. Logo, a vitória “arrasadora” foi da descrença nas eleições como forma de escolher bons gestores.
O caso de Candeias do Jamari é emblemático. O caos político-administrativo convive com índices precários de pobreza, violência, desemprego e quase nenhum saneamento básico. A sua proximidade com Porto Velho é utilizada de forma negativa pelas sucessivas administrações, que se limitam a tratar o município como cidade-dormitório (Eitaaa! Tempos que não voltam mais!), em que os seus trabalhadores devem se deslocar à capital para trabalhar (e consumir e utilizar os serviços públicos de lá) e voltar para o repouso noturno.
Esta estratégia explica os ininterruptos casos de corrupção que ocorrem no município. Se Candeias vivenciasse um surto de desenvolvimento, a demanda por serviços públicos aumentaria, uma vez que os empregos gerados resultantes disso reduziriam o fluxo de pessoas para Porto Velho e as fixariam na cidade. Além disso, o aumento de empregos produziria a chegada de novos trabalhadores, novos agentes econômicos e, eventualmente, novas lideranças. Esta é uma equação que assusta os donos do poder local.
Diante de quadro tão desanimador, o município vai às urnas daqui a alguns meses novamente, para ratificar a permanência do vencedor desta última ou para escolher outro nome. De um jeito ou de outro, há que dar ao eleito o benefício da não condenação prévia, uma vez que o tempo não permitirá a ele corrigir todas as mazelas acumuladas em décadas – e nem por promover ações eleitoreiras, pois será candidato à reeleição ao mesmo tempo e agora.




