Uma música do grupo Racionais Mc´s, grupo de rap paulistano, questiona a meritocracia a brasileira: como ser duas vezes melhor para ocupar espaços de poder e decisão com dez vezes menos estrutura, cinquenta vezes menos oportunidade e um milhão de vezes mais preconceito?
É o sentimento que tem tomado conta das rotinas da Professora Rosangela Hilário, candidata a deputada federal pelo PDT, em Rondônia: as ausências de saneamento básico e água tratada adoecem as crianças e comprometem a saúde de pessoas idosas. Que ao procurar um posto de saúde não encontram acolhimento, cuidados, remédios básicos. Nas madrugadas mães angustiadas, idosos envergonhados e crianças tristes dividem espaços na rua em busca de uma ficha que garanta um atendimento. Nem todos serão atendidos. E, quando são atendidos não há aparelhos para fazer exames. Não há remédios. Por vezes, não há médicos.
Como ser duas vezes melhor sem escolas e creches para educação infantil? A creche é um direito da criança que beneficia também a mãe trabalhadora: é uma garantia que o dever de garantir o sustento da família não será impeditivo para que sua criança seja cuidada, estimulada ao desenvolvimento e socialização. A educação infantil, por outro lado, assegura que o desenvolvimento e consolidação de saberes que permitirão que as crianças tenham um percurso escolar sem sobressaltos, simétricos e com igual oportunidade. A falta de vagas nas creches e escolas de educação infantil rouba destas crianças o futuro, arrebata a esperança, suprime oportunidades.
Como ser duas vezes melhor sem acessar as ciências e o conhecimento formal por meio da universidade pública? E quando acessa não haver política para manutenção e formação com qualidade?
Por outro lado, como desenvolver saberes e competências sem conseguir concentração em função da fome que castiga e desanima? Estudantes da Educação Básica tem se evadido da escola em função das assimetrias sociais, da falta de insumos básicos como livros e materiais didáticos básicos, da falta de sua história e de sua ancestralidade em livros e apostilas, da fome e da necessidade de contribuir para manter a família alimentada e cuidada. Meninas estão engordando diárias e meninos fazendo “bicos” para contribuir na manutenção das famílias,
Em meio ao caos da reforma trabalhista, das ausências e da desesperança, o povo vai desacreditando da política e dos políticos. Quem não tem legado e trabalho a apresentar se aproveita do desespero, da fome e das benesses do orçamento secreto para ludibriar pessoas desesperadas e manter seus privilégios: seu compromisso é com os privilégios que se acostumaram a ter. Pulam de barco em barco com propósito de mantê-los.
A campanha está chegando ao final. Mas, por onde tem passado a Professora tem esperançado futuro, ganhado apoio e dialogado sobre possibilidades. Como tem dito em suas conversas em reuniões como as que aconteceram neste final de semana em Guajará Mirim ou na última semana com entregadores de comida no bairro Mariana: Direitos não são privilégios transferidos em hereditariedade aos privilegiados. A juventude não quer privilégios: quer escola, comida no prato e oportunidade de desenvolvimento.



