Por Fábio Vidotti
A trajetória política de Confúcio Moura (MDB) talvez seja uma das mais completas e longas da história de Rondônia. Médico, ex-policial militar, ex-secretário de Saúde, deputado federal por três mandatos consecutivos, prefeito de Ariquemes por duas vezes, governador do estado por dois mandatos e senador da República, Confúcio construiu uma carreira que atravessou praticamente todas as fases políticas da redemocratização rondoniense.
Nascido em Dianópolis, atualmente Tocantins, em 1948, mudou-se para Rondônia ainda nos anos 70, quando Ariquemes sequer tinha a estrutura urbana que possui hoje. Formado em Medicina pela Universidade Federal de Goiás, tornou-se um dos primeiros médicos da região e construiu forte influência local através da medicina, da atuação empresarial na área da saúde e da política.
Confúcio nunca foi um político de explosões ideológicas. Sua marca sempre foi outra: diálogo, pragmatismo e construção de alianças amplas. Filiado ao MDB desde os tempos do antigo PMDB, jamais trocou de partido, algo raro na política brasileira. Isso ajudou a consolidar sua imagem de político tradicional, institucional e moderado.
Sua ascensão começou de forma mais sólida em 1994, quando foi eleito deputado federal. Depois vieram as reeleições em 1998 e 2002. Na Câmara Federal, ocupou posições de liderança dentro do PMDB e transitava bem entre diferentes correntes políticas. Não era visto como radical. Nem à direita, nem à esquerda.
Mas foi em Ariquemes que Confúcio encontrou seu maior laboratório político.
Ao assumir a prefeitura em 2005, apostou em um modelo administrativo técnico, focado em planejamento urbano, saúde pública e gestão administrativa. Sua administração recebeu reconhecimento nacional e transformou Ariquemes em uma das cidades mais organizadas economicamente de Rondônia naquele período. O sucesso municipal abriu caminho para o salto estadual.
Em 2010, em um cenário político turbulento, marcado pela cassação da candidatura de Expedito Júnior, Confúcio venceu a eleição para governador e derrotou João Cahulla no segundo turno com ampla vantagem eleitoral.
No governo, tentou implementar um modelo de gestão baseado em planejamento estratégico, modernização administrativa e políticas públicas voltadas para infraestrutura, educação, agricultura familiar e saúde. Seu perfil era mais técnico do que ideológico. Investiu em programas sociais, expansão do SUS, escolas indígenas, regularização fundiária e desenvolvimento regional.
E é justamente aí que começa o ponto central de sua trajetória política.
Embora nunca tenha sido um político de esquerda clássica, Confúcio passou a ser identificado por muitos setores conservadores como alguém alinhado ao campo progressista. Parte disso ocorreu pelo seu discurso social-democrata, pela aproximação institucional com pautas sociais e pela facilidade em dialogar com governos e lideranças de centro-esquerda.
Na eleição de 2014, por exemplo, recebeu apoio explícito de setores ligados ao PT no segundo turno contra Expedito Júnior. Esse movimento teve consequências políticas profundas nos anos seguintes. Rondônia mudou. E mudou rápido.
O estado mergulhou fortemente no conservadorismo ideológico, especialmente após 2018. O eleitorado passou a exigir posicionamentos mais rígidos, mais polarizados e menos moderados. O espaço da conciliação começou a desaparecer. Políticos que tentavam dialogar com todos os lados passaram a ser vistos com desconfiança. Confúcio Moura acabou se tornando vítima dessa transformação.
Para grande parte da direita rondoniense, virou símbolo de uma política moderada demais, institucional demais e próxima demais da esquerda. Já para setores progressistas, nunca foi considerado um representante legítimo da esquerda ideológica. Ficou no meio do caminho. E talvez esse seja o drama político de Confúcio Moura.
Ele pertence a uma geração de líderes que acreditavam na política da construção, da conversa e do equilíbrio institucional. Mas a política brasileira atual passou a premiar justamente o contrário: o confronto, a radicalização e o discurso de guerra permanente.
Hoje, encerrando seu mandato no Senado, Confúcio ainda carrega peso institucional, experiência administrativa e relevância histórica. Seria injusto negar sua contribuição para Rondônia. Seu currículo político é gigantesco e poucos conseguiram alcançar o nível de influência que ele alcançou ao longo de quase quatro décadas.
Mas também é impossível ignorar o desgaste evidente de sua imagem diante da nova configuração política do estado. O fim de ciclo de Confúcio Moura tem um aspecto melancólico. Não porque tenha desaparecido politicamente, mas porque representa o enfraquecimento de um modelo político que já dominou Rondônia e que hoje parece perder espaço rapidamente. No fundo, Confúcio talvez simbolize o último grande sobrevivente da velha política de conciliação em um estado cada vez mais movido pela polarização ideológica. E a polarização costuma ser cruel justamente com políticos como ele.



