Nova postura
O filme de Txai Suruí e a música de Eric Terena são expressões culturais da nova postura dos índios brasileiros, principalmente os da geração mais jovem. Ela inclui uma participação internacional mais forte e o uso intensivo de tecnologia. Vale para a área da cultura e também para a política.
De acordo com Dinamam Tuxá, um dos líderes da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib), essa nova postura começou em 2019. “As instituições que nos protegiam começaram a ser desmontadas, e deixamos de ter voz no Brasil”, diz Dinamam, com seu cocar de penas de gavião – sua tribo, os Tuxá, é da Bahia, na região do Rio São Francisco, onde há muitos pássaros dessa espécie. “Resolvemos então levar nossa mensagem ao exterior.
A primeira viagem levou uma comitiva da Apib a vários países europeus. Eles visitaram o Parlamento Europeu, na Bélgica, e também países como Alemanha, França, Espanha e Holanda. Nessa viagem inaugural, queriam alertar políticos e empresários para o fato de que muitos produtos consumidos na Europa eram oriundos de desmatamento em florestas tropicais. “Visitamos a Siemens, que faz turbinas para hidrelétricas que destroem nossas comunidades, e criadores de gado na Alemanha e na Áustria, alimentado com soja cultivada em área desmatada”, diz Dinamam.
A União Europeia acabou de aprovar, em setembro deste ano, uma lei que pune empresas que usam insumos oriundos do desmatamento – o que Dinamam considera uma vitória do lobby da Apib. Eles não viajaram à Europa em 2020 por causa da pandemia, mas mantiveram contatos por zoom com políticos e integrantes do Parlamento Europeu.
Em 2021, a associação levou uma delegação de 40 pessoas para a COP 26, em Glasgow. Na COP 27, no Egito, os indígenas brasileiros participam de dezenas de eventos internacionais. Esta foi também a primeira vez que o tradicional pavilhão do Fórum Indígena teve mesas com tradução simultânea em português – o que possibilitou uma maior interação dos indígenas brasileiros com ativistas, empresários, políticos, militantes e seus pares internacionais.
“Nós ainda somos pouco ouvidos nas discussões sobre mudança climática, mas essa situação está mudando”, disse Marciely Tupari numa das mesas do Fórum Indígena. “E temos mesmo que ser ouvidos porque, além de cuidarmos da florestas, somos os primeiros a sofrer os efeitos da mudança climática. Na minha região já há mulheres que ficaram doentes por causa da contaminação dos rios, devido ao garimpo ilegal.”
A plateia multinacional do fórum irrompeu em aplausos. Marciely é uma das coordenadoras da Coiab, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, e pretende estudar Direito para atuar melhor nas causas que defende.
Essa é uma terceira característica da nova geração de lideranças indígenas, além da inserção internacional e do uso da tecnologia. Eles criam seus próprios sistemas de comunicação e não querem depender do que chamam de “mídia não-indígena”. Alana Marchineri, coordenadora da área na Coiab, alimentou freneticamente as redes sociais da brigada amazônica durante a COP-27. “Além de manter as nações em contato, as redes nos ajudam a mostrar para a população não-indígena a realidade que estamos vivendo em nossos territórios, e como podemos contribuir para mitigar as mudanças climáticas”, diz Alana.
Eric Terena tinha uma programação quase diária como DJ na COP 27, mas não deixou de registrar cada passo dos indígenas na conferência com a equipe do Mídia Índia, um coletivo de comunicação fundado por ele. São de Eric Terena as fotos e vídeos que ilustram essa reportagem. Como em sua música, Eric combina aspectos culturais e políticos no Mídia Índia.
A totalidade dos indígenas entrevistados para a reportagem demonstrou otimismo com a mudança de governo no Brasil, e promete fazer cobranças, especialmente na área de demarcação de terras. “Minha música tem um lado de protesto, mas meu novo trabalho vai seguir uma linha mais alegre, refletindo o sentimento atual”, diz Eric. Seu próximo álbum, calcado em pesquisas musicais em vários territórios, deve chegar ao Spotify no início do ano que vem e já tem nome: Origens.