Por Edson Silveira
Assisti ao primeiro debate do segundo turno entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro, realizado pela Rede Bandeirantes neste domingo, 18 de outubro. Saí com duas impressões: a democracia ganhou com o encontro, mas o eleitor merecia uma discussão mais esclarecedora.
A Band merece reconhecimento por colocar os candidatos frente a frente. Quem pretende governar o Brasil precisa responder a perguntas, enfrentar cobranças e explicar suas escolhas publicamente. No entanto, o formato adotado permitiu que os participantes escapassem com frequência dos temas propostos. Muitas perguntas receberam respostas diferentes do que havia sido perguntado, sem uma mediação capaz de exigir esclarecimentos ou confrontar informações sem comprovação.
Os principais momentos do debate
A primeira parte foi marcada por provocações e troca de acusações. Na minha avaliação, Flávio apostou excessivamente nesse caminho, aparentemente tentando tirar Lula do sério, mas acabou abrindo espaço para questionamentos que não respondeu de forma convincente.
Um dos casos foi a menção aos R$ 134 milhões que teriam sido solicitados a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Lula insistiu no assunto, mas não ouvi uma explicação satisfatória sobre a solicitação e o eventual destino dos recursos. Responder com outra acusação pode render repercussão nas redes sociais, mas não elimina a dúvida do eleitor.
Também considerei relevantes os questionamentos sobre a atuação de Flávio como advogado de um policial acusado de matar uma criança e sobre seu apoio à retirada da exigência de marcação de munições. Como advogado, reconheço que defender alguém não significa concordar com o crime atribuído a essa pessoa. Ainda assim, é legítimo cobrar coerência de quem faz da segurança pública uma de suas principais bandeiras.
Em relação a Roberta Luchsinger, Lula afirmou que o caso deveria ser tratado pela Polícia Federal e que seu filho prestaria depoimento. Esse deve ser o princípio aplicado a qualquer família: investigação, direito de defesa e responsabilização quando houver provas. Ninguém deve ser protegido pelo sobrenome, mas também não pode ser condenado por insinuações eleitorais.
O momento mais importante, na minha leitura, ocorreu quando Lula desafiou Flávio a permitir que ambos tivessem seus sigilos bancários e telefônicos abertos à investigação. Ao se colocar à disposição do escrutínio, Lula transformou a troca de acusações em uma cobrança concreta por transparência.
Não ouvi de Flávio uma aceitação clara e direta do desafio. Para quem vinha utilizando a corrupção como arma contra o adversário, aquela era uma oportunidade de assumir publicamente o mesmo compromisso. A ausência de uma resposta objetiva deixou a questão em aberto.
Para mim, esse foi o xeque-mate político de Lula. Isso não significa que a falta de resposta prove qualquer crime, nem que a abertura de sigilos resolva todas as suspeitas. Significa que Lula apresentou uma condição objetiva e declarou estar disposto a se submeter a ela. Naquele momento, considerei que Flávio não ofereceu uma resposta à altura.
Lula também teve falhas. Em alguns momentos, entrou no bate-boca e contribuiu para prolongar discussões que pouco esclareciam. Sou favorável à sua candidatura, mas isso não me impede de reconhecer seus erros. Na primeira parte do debate, os dois falaram mais para suas próprias bases do que para os eleitores que buscavam conhecer melhor suas propostas.
Comparação das propostas
Quando o debate avançou para os temas de governo, as diferenças entre os candidatos ficaram mais claras, especialmente em segurança pública, saúde e no papel do Estado.
Na segurança, não me convence a ideia de que basta anunciar uma guerra contra o crime ou aumentar penas para resolver um problema tão complexo. É necessário fortalecer a investigação, a inteligência, a integração entre as forças policiais e a capacidade de atingir o dinheiro das organizações criminosas. O país precisa de firmeza no combate ao crime, mas também de planejamento e proteção para a população.
Na saúde, ouvi a promessa de um SUS com padrão de excelência, mas é preciso considerar a distância entre uma frase de campanha e a realidade de quem espera por consulta, exame ou cirurgia. Melhorar o atendimento exige recursos, profissionais, planejamento e compromisso permanente. A condução da pandemia pelo governo Bolsonaro torna essa cobrança ainda mais necessária.
A discussão sobre privatizações também pesou na minha avaliação. Ao trazer a Petrobras para o debate, Lula tocou em uma questão central: o destino do patrimônio público e a capacidade de o Brasil decidir seu próprio desenvolvimento.
Não considero a venda de uma empresa estratégica uma solução automática para melhorar a eficiência. Antes de qualquer decisão, é preciso saber quem será beneficiado, quais serão as consequências para os consumidores e como o interesse nacional será protegido. Quem defende uma privatização deve explicar claramente o que pretende vender, por quanto e sob quais condições.
Para nós, que vivemos em Rondônia, essa preocupação é concreta. É preciso pensar nas pessoas que moram longe dos grandes centros, nas comunidades dependentes de serviços e investimentos públicos e nas regiões em que o retorno financeiro pode ser pequeno, mas a necessidade social é grande. O interesse de uma comunidade não pode ser medido apenas pela margem de lucro que oferece.
Defender empresas públicas, porém, também significa exigir boa gestão, transparência e fiscalização. O patrimônio público deve estar a serviço da população, com capacidade de investir e contribuir para o desenvolvimento.
Foi ao tratar dessas escolhas de país que, na minha avaliação, Lula se mostrou mais preparado. Vi nele maior consistência na defesa do Estado como instrumento de proteção social e desenvolvimento. De Flávio, esperava mais explicações e menos provocações.
Terminei o debate convencido de que Lula teve o melhor desempenho. Não foi uma apresentação sem falhas, mas considero que saiu vitorioso. O desafio sobre a abertura dos sigilos deixou uma cobrança que merece resposta: quem exige transparência do adversário também precisa estar disposto a praticá-la.
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor aposentado e analista politico.




