Por Roberto Kuppê (*)
Em Guajará-Mirim, a construção da ponte binacional com a Bolívia expõe uma contradição cada vez mais comum na política brasileira: a facilidade com que alguns transformam obras públicas em palanque — mesmo quando não foram protagonistas de sua viabilização.
O caso do Coronel Crisóstomo é emblemático. Vinculado à extrema direita e crítico recorrente do governo federal, o deputado agora tenta associar sua imagem a uma obra que depende diretamente da gestão do Luiz Inácio Lula da Silva e da articulação política de Confúcio Moura, do MDB.
A ponte não é fruto de retórica, nem de redes sociais. É resultado de decisão de Estado, investimento federal e negociação institucional. Não nasce em gabinete de deputado, muito menos em eventos paralelos ou seminários políticos. Obras dessa magnitude exigem algo que vai além de discurso: exigem capacidade de articulação, trânsito em Brasília e construção de consenso — características mais associadas ao perfil de Confúcio do que ao estilo aloprado de Crisóstomo.
Ainda assim, o que se vê é uma tentativa clara de reescrever a narrativa. Ao promover eventos e se colocar como figura ativa no debate, o deputado busca ocupar um espaço simbólico que não corresponde ao seu papel real no processo.
E aqui está o ponto central: não se trata de impedir participação política. Trata-se de distinguir quem construiu de quem apareceu depois.
A contradição se torna ainda mais evidente quando se observa o discurso. O mesmo parlamentar que ataca o governo federal — responsável direto pela execução da obra — agora se beneficia politicamente de seus resultados. É a velha prática de criticar em Brasília e capitalizar no interior.
Esse padrão não é novo, mas ganha contornos mais agudos quando acompanhado de outros episódios que fragilizam a imagem institucional do mandato. Casos como a investigação sobre nomeação de familiares no gabinete e episódios considerados pouco compatíveis com a liturgia do cargo reforçam a percepção de um mandato mais voltado à performance do que à entrega concreta.
No fim, a ponte vai cumprir seu papel de integração entre países. Já na política, ela cumpre outro papel: o de revelar quem trabalha pela obra e quem trabalha a obra.
E, nesse caso, a diferença não é pequena — é estrutural.
(*)Roberto Kuppê é jornalista e articulista político



