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quarta-feira, fevereiro 25, 2026
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Do cansaço à esperança: por que o Brasil precisa do fim da escala 6×1 e da jornada de 36 horas

Por Édson Silveira

O Brasil vive um paradoxo cruel. Somos uma das maiores economias do mundo, temos tecnologia, inovação e produtividade crescente, mas milhões de trabalhadores ainda vivem presos a uma lógica de exploração que parece saída do século XIX. A escala 6×1 é a expressão mais brutal dessa realidade. Trabalhar seis dias para descansar apenas um não é progresso. É sobrevivência.

É por isso que a Proposta de Emenda à Constituição que reduz a jornada para 36 horas semanais ganhou força no Congresso Nacional. E é preciso dizer com todas as letras: essa não é uma pauta radical. Radical é achar normal que o trabalhador brasileiro viva cansado, doente e sem tempo para a própria família.

Antes de tudo, é fundamental esclarecer o que está em debate. Uma PEC não é uma lei qualquer. Ela altera a Constituição Federal. Exige maioria qualificada, dois turnos de votação na Câmara e no Senado. Não é um decreto, não é improviso, não é populismo. É um processo sério, democrático e legítimo. Quem tenta desinformar a população dizendo que isso é aventura política está, na verdade, com medo de perder privilégios.

O que a PEC propõe é claro: reduzir a jornada máxima de 44 para 36 horas semanais, sem redução de salário e com transição gradual. Na prática, isso abre caminho para o fim da escala 6×1 e para um novo modelo de trabalho no Brasil. Significa mais tempo para estudar, conviver com a família, cuidar da saúde, participar da vida comunitária e, por que não, sonhar.

Os mesmos que hoje gritam contra a redução da jornada são os que, no passado, lutaram contra férias, contra o 13º salário, contra a licença maternidade, contra a carteira assinada. Sempre disseram que o país quebraria. O país não quebrou. O país cresceu. Quem quebrou foi o argumento deles.

A verdade é incômoda para quem vive do privilégio: a resistência à jornada de 36 horas não é econômica, é ideológica. Existe uma parte da elite que acredita que o trabalhador deve viver apenas para trabalhar. Que descanso é luxo. Que lazer é privilégio. Que dignidade é exagero.

O mundo real já mudou. Países desenvolvidos discutem semana de quatro dias, produtividade com qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Experiências mostram aumento de produtividade, menos afastamentos e mais inovação. Um trabalhador descansado rende mais. Um trabalhador exausto erra mais, adoece mais e produz menos.

No Brasil, a jornada oficial não reflete a realidade. O trabalhador acorda de madrugada, enfrenta transporte precário, trabalha sob pressão, muitas vezes com metas abusivas, e ainda leva trabalho para casa. A jornada real ultrapassa facilmente as 44 horas. Isso gera adoecimento físico e mental, destrói relações familiares e compromete o futuro de uma geração inteira.

E aqui está o ponto que os críticos evitam: reduzir a jornada pode gerar empregos. Quando o tempo de trabalho é distribuído, mais pessoas entram no mercado. Isso fortalece a economia, amplia consumo e aumenta arrecadação. É desenvolvimento com inclusão.

Quem é contra essa proposta precisa explicar: qual o projeto deles para o Brasil? Mais desigualdade? Mais concentração de renda? Mais gente cansada e endividada? Defender o atraso não é responsabilidade fiscal. É falta de projeto de país.

A PEC das 36 horas não ignora a realidade econômica. Ela prevê transição gradual, diálogo com setores produtivos e adaptação. Não se trata de ruptura, mas de evolução. O objetivo é modernizar o país e alinhar o Brasil às economias que entenderam que produtividade e qualidade de vida caminham juntas.

Outro ponto que não pode ser ignorado é o impacto da automação e da inteligência artificial. A tecnologia aumenta a produtividade, mas se a jornada não diminui, o resultado é desemprego ou concentração de renda. A pergunta é simples: quem ficará com os ganhos da modernização? Apenas os grandes grupos econômicos ou toda a sociedade?

Reduzir a jornada é distribuir progresso. É garantir que o avanço tecnológico gere qualidade de vida, não exclusão. É preparar o Brasil para o futuro.

Os que atacam essa pauta dizem que ela é “ideológica”. De fato, é. É a ideologia da dignidade humana, da justiça social e da civilização. Nenhuma sociedade avançada se construiu explorando sua população até o limite. O progresso sempre esteve ligado à redução da jornada.

Chegou a hora de escolher. Entre o cansaço e a esperança. Entre o atraso e o futuro. Entre a exploração e a dignidade.

O fim da escala 6×1 e a jornada de 36 horas não são apenas uma proposta. São um projeto de país. Um Brasil onde o trabalhador não vive apenas para sobreviver, mas para viver.

Edson Silveira, advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO.

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