Por Roberto Kuppê (*)
É certo que, com o advento da internet – e da profusão de possibilidades de comunicação trazidas por ela – as relações entre as pessoas e entre estas e as coisas se modificaram substancialmente. Isto se aplica também nas relações entre os cidadãos e a gestão pública. O resultado é a “coisificação” na interação entre o interesse público e o interesse coletivo, no qual o último é tratado como contraditório ao que é público e, por isso, é ignorado ou combatido.
Em uma cidade construída a partir da mistura de povos e culturas diferentes, o papel desejável do poder público seria atuar para que interação entre eles fosse pela convergência e não pela cristalização das diferenças – em que as disputas é o resultado mais provável. Embora não seja tarefa simples, a opção pelo acolhimento, a empatia e o afeto entre os habitantes de uma mesma comunidade são as escolhas mais acertadas por aqueles que dirigem os espaços públicos.
No entanto, a lógica da exclusão é o que tem orientado os gestores do município de Porto Velho, desde sempre. Isto não é uma prerrogativa exclusiva da esquerda ou da direita, parece uma visão arraigada no imaginário de todos os agentes políticos que alcançam estatura eleitoral para disputar o mandato majoritário na capital do estado.
Usarei um exemplo atualíssimo para ilustrar o que narro neste texto, que pode ser replicado em outras situações e momentos históricos da nossa cidade.
Depois de idas e vindas diversas, o poder público (parece que houve uma pactuação entre os três níveis de governos) decidiu privatizar a gestão do maior ícone da cultura do estado, a rede ferroviária Madeira-Mamoré – mesmo tendo a prefeitura, o estado e a união estruturas próprias para cuidar de patrimônios e acervos culturais.
Pois bem. Sem entrar no mérito do porquê da preferência por esta opção, depois de sucessivos atrasos – e nenhuma explicação convincente dos responsáveis – entregou-se a gestão do espaço para a iniciativa privada (afinal, a sociedade não poderia mais esperar). A empresa escolhida, como se esperava, cercou-se de todos os cuidados para garantir o máximo lucro com venda de todos os tipos de produtos e serviços aos visitantes. O resultado disso é um claro desvio de finalidade do bem público a serviço da iniciativa privada, agravada ainda mais por se tratar de espaço com valor histórico e cultural, cuja participação do particular em nada concorreu para isso.
No sentido de evitar perdas econômicas, a empresa vencedora “exigiu” que o poder público municipal não permitisse a comercialização de mercadorias por ambulantes no lado externo da estação ferroviária, ou ao menos nos arredores do local, tratando-os como se potenciais concorrentes – e marginais – fossem. É raro o dia em que a polícia não é chamada para “convidar” os trabalhadores que insistem em se “incluir” em algo que não lhes pertencem – ou chamada pelos fiscais que dão plantão ou pelos seguranças privados do local.
Como se vê, a gestão da cidade não consegue produzir resultados de suas políticas sem que se recorra a lógica da exclusão. No caso tratado neste texto em particular, a solução seria simples, desde que houvesse boa vontade e empatia com as pessoas. A concessão e o controle de uma dúzia de autorizações, com filtros para produtos não ofertados no interior da atração seria o bastante para evitar que se perpetuasse postura tão mesquinha.
Imagine se no Pelourinho, em Salvador, no Recife Antigo, em Recife, no Centro Histórico de São Luís, na Rua 25 de Março e no Brás, em São Paulo, não houvesse a figura do camelô a lhe dar a dinâmica cultural e a pujança econômica que estes locais possuem? Neles, ao contrário de Porto Velho, a lógica da exclusão é rejeitada.
(*) Roberto Kuppê é jornalista e articulista político
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