Por Ronald Pinto
As ferramentas tecnológicas devem ser usadas com inteligência estratégica. Na minha juventude, vi a esquerda desconfiar profundamente da comunicação de massa, acusando-a de informar sem formar, de moldar mentes para a passividade e para o consumo. No entanto, essa mesma comunicação de massa foi decisiva quando elegemos Lula em uma campanha brilhante, capaz de transformar uma simples palavra — “Esperança” — em força política. Era a mesma palavra que explodia na tela da maior novela da Globo, ressoando no imaginário popular e se contrapondo ao medo fabricado pelo antipetismo de figuras como Regina Duarte. A esperança venceu o medo, e venceu usando a lógica da mídia de massa que antes condenávamos.
Por algum tempo, acreditamos ter compreendido o jogo. Mas então a direita chegou com as redes sociais. Criadas para impulsionar o comércio eletrônico, essas plataformas logo perceberam que a política também podia ser tratada como mercadoria, vendida de forma direcionada para públicos segmentados, manipulando desejos, ansiedades e crenças como se fossem produtos. Assim, venderam Bukele, venderam o Brexit, venderam Trump, venderam Bolsonaro, venderam Netanyahu. Da mesma forma que corporações mantêm lucros estratosféricos vendendo lixo para a massa, as big techs venderam lixo político para consumidores desinformados e emocionalmente vulneráveis, transformando desconfiança, ressentimento e ódio em motores eleitorais.
Agora vivemos a chegada da Inteligência Artificial e, mais uma vez, a esquerda reage com o velho reflexo negacionista que teve diante da comunicação de massa e depois diante das redes sociais. Mas ignorar a IA é um erro estratégico grave. Ela será uma arma imbatível — e, se apenas a extrema-direita aprender a manejá-la, a esquerda sofrerá derrotas que não poderá reverter. Estamos em um mundo regido pela fluidez da pós-verdade, no qual verdades são disputadas como mercadorias e narrativas superam fatos. É uma era que produziu a inversão histórica mais perturbadora de nosso tempo: agora, quem ameaça “revoluções” não são os movimentos populares, mas a extrema-direita global, bem equipada, articulada e tecnologicamente avançada.
Assim como nas redes sociais existem selos para garantir a legitimidade das contas, precisamos avançar para uma tecnologia que registre a identidade do autor de qualquer material criado com Inteligência Artificial. Qualquer conteúdo de autoria desconhecida ou não assumida deve ser tratado como falso, como uma tentativa de manipulação. Essa medida é urgente e necessária para restabelecer algum grau de confiança no ecossistema informacional e impedir que a máquina de desinformação da extrema-direita continue operando com total impunidade.
Se a esquerda deseja sobreviver, precisa abandonar o atraso voluntário. Não se trata de celebrar tecnologia como fetiche, mas de compreendê-la como campo de batalha. Estar ausente dele é entregar o futuro — e a democracia — de bandeja aos que fazem da mentira um projeto de poder.




