Por Roberto Kuppe
Há anos, parte da política rondoniense insiste em repetir, com convicção quase religiosa, que o PT e a esquerda estariam politicamente mortos no estado de Rondônia. A realidade é que o PT segue andando, disputando espaço e, pior para alguns, aparecendo com viabilidade eleitoral. Talvez seja o caso de atualizar os dados antes de enterrar o partido que está mais vivo do que nunca.
E, ao contrário dos que muitos previam, o PT de Rondônia está mais animado do que nunca. Os otimos números do governo Lula são umas das causas deste otimismo.
Pesquisas recentes desmontam essa narrativa com a frieza que costuma incomodar torcidas. Apenas 4,9% dos eleitores afirmam votar por identificação ideológica. Em outras palavras: o antipetismo automático, tão barulhento nas redes sociais, não explica o comportamento real do eleitor rondoniense. Fora da bolha, o voto é pragmático — e isso frustra muita gente.
O eleitor não segue ordens — apesar de ainda ser tratado como se seguisse
Embora 63% do eleitorado se declare inclinado à centro-direita, isso está longe de significar fidelidade política. A avaliação do governo estadual é um bom termômetro: Marcos Rocha soma cerca de 36% de “bom e ótimo”, índice que só melhora quando se incluem os que consideram o governo regular. Ainda assim, apenas 4,1% dizem votar por influência direta de lideranças políticas.
Tradução simples: o eleitor não recebe ordem, não transfere voto por herança e não compra discurso pronto. Para quem construiu carreira apostando em cabresto eleitoral, é uma péssima notícia.
As pautas da esquerda seguem vivas — para desespero dos negacionistas
Outro dado particularmente incômodo para quem decretou o fim da esquerda: 60,2% dos eleitores afirmam se preocupar com a crise climática, enquanto apenas 21,7% dizem que a religião influencia diretamente o voto. Em Rondônia. No meio da Amazônia. Um detalhe que insiste em atrapalhar narrativas fáceis.
Se a esquerda estivesse morta, suas bandeiras não teriam apoio majoritário. Mas fatos têm esse defeito: não respeitam discursos prontos.
Renovação política não é sinônimo de amadorismo
A palavra da moda é renovação, mas parte da classe política insiste em traduzi-la como improviso. O eleitor, no entanto, parece mais sofisticado do que muitos imaginam. Renovar, para ele, significa romper com práticas desgastadas — não substituir experiência por marketing vazio.
É justamente aí que o PT de Rondônia começa a incomodar. O partido reaparece com nomes que combinam trajetória, preparo técnico e densidade política, algo cada vez mais raro no mercado eleitoral local.
Câmara Federal: representação nacional volta a importar
Na disputa por vagas à Câmara dos Deputados, o campo progressista volta a ocupar um espaço que nunca deixou de existir, apesar do esforço alheio em fingir o contrário. Edson Silveira, advogado, administrador e professor universitário, surge como nome central nesse processo. Com experiência na gestão pública e atuação política contínua, ele ocupa de forma natural o espaço deixado pelo saudoso Eduardo Valverde, referência histórica da esquerda rondoniense.
Ao lado de Edson Silveira aparecem Anselmo de Jesus, Márcia Cristina, Euzilene da CUT e Israel Trindade. Todos com militância real, inserção social concreta e um detalhe frequentemente ignorado por analistas de torcida: níveis de rejeição bem menores do que muitos figurões superexpostos. Em eleição proporcional, isso costuma fazer diferença — embora nem todos gostem de admitir.
Mais do que nomes, está em jogo algo que Rondônia perdeu nos últimos anos: representação nacional com capacidade real de articulação. Um PT fortalecido na Câmara significa bancada alinhada ao governo federal, condição essencial para ajudar o presidente Lula em um possível quarto mandato e garantir que Rondônia volte a participar do centro das decisões — e não apenas da fila de espera por emendas.
Porque, goste-se ou não de Lula, a matemática é simples: quem tem bancada, tem voz; quem tem voz, atrai investimentos.
Assembleia Legislativa: experiência ainda rende votos
No plano estadual, o PT também avança. A deputada Cláudia de Jesus mantém mandato ativo e vínculo com as bases. Ramon Cujui, Sid Orleans e Giovanna ampliam o alcance territorial e geracional do partido.
O destaque inevitável é Fátima Cleide, ex-senadora da República, com sólida formação, ampla experiência legislativa e administrativa e uma trajetória marcada por serviços concretos prestados a Rondônia, especialmente nas áreas social, educacional e de defesa da Amazônia. Em tempos de campanhas rasas e discursos descartáveis, Fátima incomoda justamente por ter currículo — algo que virou defeito apenas para quem nunca teve um.
Governo do estado: cenário aberto e imprevisível
No Executivo estadual, o quadro segue indefinido — apesar da ansiedade de quem gostaria de encerrar a eleição antes mesmo de começar. A eventual filiação de Expedito Neto ao PT surge como um fator novo e incômodo no tabuleiro político rondoniense, especialmente em uma sucessão pulverizada, marcada por lideranças tradicionais tecnicamente empatadas e politicamente desgastadas, com rejeições crescentes.
Nesse cenário, não vence quem grita mais alto nem quem ostenta o rótulo ideológico mais rígido, mas quem consegue atravessar o eleitorado com baixa rejeição, discurso pragmático e mínima capacidade de diálogo. Expedito Neto passa a ser observado como um nome capaz de crescer rapidamente — sobretudo se a disputa continuar prisioneira de figuras recicladas vendendo novidade em embalagem vencida.
O mito do “PT acabou” venceu o prazo de validade
Insistir na tese de que o PT morreu em Rondônia diz mais sobre o desejo de quem repete o bordão do que sobre a realidade eleitoral. O eleitor está menos radicalizado, mais exigente e disposto a avaliar propostas, currículos e resultados.
O cenário de 2026 não aponta para hegemonias fáceis. Aponta para disputa real. E, nesse ambiente, o PT não apenas sobreviveu ao próprio velório como se organiza para voltar a ter peso estadual, voz nacional e influência direta na condução do país.
Quem ainda não percebeu provavelmente vai descobrir — como quase sempre acontece — na noite da apuração.



