Por Édson Silveira
Em tempos de gritaria fácil, rótulos vazios e discursos prontos para redes sociais, uma pergunta simples ainda provoca incômodo em muita gente: afinal, o que é ser de esquerda?
Ser de esquerda não é repetir palavras de ordem. Não é usar camisa vermelha, nem decorar frases de efeito. Ser de esquerda, antes de tudo, é uma posição ética diante do mundo. É escolher de que lado se está quando a desigualdade bate à porta.
Ser de esquerda é entender que a liberdade só é real quando alcança a todos, e não apenas aos que já têm privilégios. É reconhecer que mérito sem oportunidade é apenas discurso bonito para justificar injustiça. É perceber que um país não cresce de verdade quando cresce apenas para poucos.
Ser de esquerda é defender que o filho do pobre tenha as mesmas chances que o filho do rico. É lutar para que o trabalhador não seja tratado como descartável. É não naturalizar a fome, o desemprego e a exclusão como se fossem parte inevitável da vida.
Ser de esquerda é ter lado. E esse lado não é neutro. É o lado da escola pública, do SUS, da universidade acessível, do salário digno, da aposentadoria justa. É o lado de quem acorda cedo, pega ônibus lotado e ainda assim sustenta este país de pé.
E é importante dizer com todas as letras: ser de esquerda não é ser contra o agronegócio produtivo, eficiente e honesto. Muito pelo contrário. A esquerda reconhece o papel estratégico do campo na economia brasileira. O que se combate é o abuso, a concentração excessiva de terra, a degradação ambiental irresponsável e a exploração que não respeita trabalhadores nem comunidades. Defender o agronegócio sério é defender regras justas, sustentabilidade e equilíbrio entre produção e dignidade humana.
Ser de esquerda também é enfrentar interesses poderosos. Porque toda vez que alguém defende direitos, há sempre quem perca privilégios. E é exatamente por isso que tentam demonizar a esquerda: para que o povo tenha medo daquilo que, na verdade, foi feito para protegê-lo.
Mas ser de esquerda vai além da economia. É também uma visão de mundo. É acreditar na solidariedade em vez do egoísmo. Na cooperação em vez da competição desenfreada. Na democracia como prática cotidiana, e não como discurso de ocasião.
E há algo que precisa ser dito com clareza: ser de esquerda não é ser contra o sucesso. É ser contra o sucesso construído às custas da miséria alheia. Não é ser contra quem cresce, mas contra um sistema que impede milhões de crescerem.
Num país como o Brasil, onde poucos têm muito e muitos têm quase nada, ser de esquerda é, no fundo, um ato de coragem. Porque significa enfrentar a narrativa dominante, questionar privilégios históricos e propor mudanças reais.
Ser de esquerda é não aceitar que a desigualdade seja destino. É acreditar que política pode, sim, melhorar a vida das pessoas. É recusar o cinismo de quem diz que “sempre foi assim”.
E talvez a definição mais honesta seja esta: ser de esquerda é não desistir das pessoas.
Porque, no final das contas, enquanto houver gente passando fome, trabalhando sem direitos ou vivendo sem dignidade, a esquerda não será uma escolha ideológica. Será uma necessidade histórica.
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO




