Por Édson Silveira
Há momentos em que a política deixa de ser um debate entre correntes ideológicas e passa a ser um teste de caráter coletivo. Não é que direita e esquerda tenham desaparecido. É que, diante do que estamos vivendo, essa divisão parece pequena demais. A próxima eleição não será apenas uma escolha de projetos. Será um espelho. E nem sempre gostamos do que vemos no espelho.
A barbárie, convenhamos, é barulhenta. Ela não pede licença, não estuda, não explica. Ela simplifica tudo em frases prontas, transforma ignorância em convicção e chama grosseria de coragem. É prática, rápida e, para muitos, sedutora. Afinal, pensar dá trabalho. Verificar fatos dá trabalho. Respeitar o outro, então, nem se fala. Muito mais fácil é aderir ao espetáculo da agressividade travestida de autenticidade.
Já a civilidade não rende aplausos fáceis. Ela exige paciência, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com a verdade. Não viraliza com a mesma velocidade, não produz cortes inflamados para redes sociais, mas sustenta aquilo que realmente importa: a democracia, as instituições e a convivência em sociedade. É menos emocionante, é verdade. Mas também é menos destrutiva.
O Brasil já teve a oportunidade de experimentar, na prática, o que acontece quando a barbárie assume o comando. Não foi teoria, não foi exercício acadêmico, não foi “exagero da oposição”. Foi real. Um período marcado pelo desrespeito sistemático às instituições, pela banalização da mentira e pela tentativa de transformar o Estado em instrumento de interesses particulares. Tivemos a negação explícita da ciência justamente quando ela era mais necessária, durante a crise da COVID-19, enquanto o país assistia, perplexo, à perda de mais de 600 mil vidas. Mas, claro, sempre há quem diga que “não foi bem assim”. A memória, ao que parece, também virou território de disputa.
E aqui cabe uma pergunta incômoda: quantas dessas práticas realmente nos indignaram e quantas nós relativizamos porque vinham do “nosso lado”? Porque a barbárie não se sustenta sozinha. Ela precisa de aplauso, de silêncio conveniente ou, no mínimo, de tolerância seletiva.
O que está em jogo, portanto, não é apenas quem vence a eleição. É o padrão que aceitaremos como normal. É decidir se a mentira pode continuar sendo método, se o ataque às instituições pode seguir sendo estratégia e se a desinformação pode continuar sendo ferramenta eleitoral legítima.
Vivemos um tempo em que muitos políticos descobriram que não precisam resolver problemas. Basta criar narrativas. Não precisam apresentar resultados. Basta apontar inimigos. Não precisam ter preparo. Basta ter seguidores. E assim, pouco a pouco, o debate público vai sendo substituído por um espetáculo raso, onde quem grita mais alto parece ter razão.
Por isso, o cuidado precisa ser redobrado. Não com o outro. Com nós mesmos. Com aquilo que consumimos, compartilhamos e, principalmente, acreditamos. O voto não pode ser um ato impulsivo, movido por raiva ou identificação cega. Ele precisa ser um exercício de consciência. Ou, no mínimo, de responsabilidade.
No fim, a escolha é menos sobre candidatos e mais sobre o tipo de sociedade que estamos dispostos a tolerar. Uma sociedade onde a barbárie dita as regras, ou uma sociedade que, mesmo com suas imperfeições, ainda acredita na civilidade como caminho.
Se a resposta não for óbvia, talvez o problema não esteja na eleição.
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO




