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domingo, abril 19, 2026
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A hipocrisia na política e o teatro das falsas narrativas

Por Édson Silveira

A política brasileira, por vezes, parece menos um espaço de construção coletiva e mais um grande palco de teatro, daqueles em que os atores mudam de figurino conforme a plateia, mas nunca o roteiro. E o roteiro, convenhamos, é velho: discursos inflamados em público, acordos silenciosos nos bastidores e uma criatividade impressionante para distorcer a realidade sem corar.

Vivemos a era das narrativas. Não importa o fato, importa a versão. Se a realidade não ajuda, adapta-se. Se os números incomodam, reinterpretam-se. Se a incoerência aparece, culpa-se o adversário. É um espetáculo curioso: o erro vira estratégia, a contradição vira discurso, e a mentira, quando embalada com voz firme e pose de estadista, vira posicionamento político.

E no meio desse circo, surgem os personagens clássicos. O salvador da pátria de ocasião, que até ontem não sabia onde ficava o problema, mas hoje garante ter todas as soluções. O moralista seletivo, que aponta o dedo com uma mão e esconde o passado com a outra. E, claro, o especialista em tudo, da economia à saúde, da segurança à educação, desde que seja para falar bonito em rede social, sem nunca precisar provar competência na prática.

A ironia é que muitos desses novos líderes são promovidos não pela competência, mas pela habilidade de falar exatamente o que uma parcela do público quer ouvir. Não importa se sabem fazer, basta parecer que sabem. E assim, pouco a pouco, a política vai sendo ocupada por personagens que dominam o discurso, mas desconhecem a realidade, verdadeiros artistas da improvisação administrativa, mestres da encenação e doutores na arte de posar para fotografia ao lado de obras que nunca ajudaram a construir.

Em Rondônia, infelizmente, o comportamento da nossa classe política não foge a essa regra. Aqui também há de tudo um pouco no cardápio da esperteza pública: do falso moralista, que posa de vestal da ética enquanto negocia conveniências nos bastidores, ao desonesto intelectual, que manipula fatos, omite contextos e tenta transformar esperteza em virtude. Há ainda aqueles que se apropriam descaradamente das ações, investimentos e obras dos outros para enganar os incautos, como se o velho truque de aparecer na fotografia fosse suficiente para reescrever a verdade. Em muitos casos, não entregam trabalho, entregam encenação; não produzem resultado, produzem narrativa; não servem ao povo, servem-se dele.

E o eleitor? Ah, o eleitor, esse é constantemente convidado a acreditar que está assistindo a um debate sério, quando, na verdade, muitas vezes está diante de um roteiro mal ensaiado. A emoção substitui a razão, a identificação substitui a análise, e o carisma passa a valer mais do que a capacidade. Vende-se indignação pronta, coragem cenográfica e honestidade de ocasião, tudo em suaves prestações eleitorais.

Mas há um detalhe inconveniente nesse espetáculo: quem paga o ingresso é a população, e o preço costuma ser alto. Decisões mal tomadas não ficam no discurso. Elas chegam ao bolso, ao posto de saúde, à escola, à infraestrutura, ao emprego e à dignidade do cidadão. A mentira eleita não vira verdade no mandato. Vira prejuízo.

Por isso, talvez seja hora de trocar o papel de espectador pelo de crítico. Desconfiar de soluções fáceis demais, de discursos perfeitos demais e de candidatos que nunca erram, porque perfeição na política costuma ser sinal de edição, não de verdade. Quem fala demais sobre moral, muitas vezes quer apenas esconder a própria biografia. Quem grita demais contra tudo, quase sempre não tem nada sério para propor. E quem vive tentando tomar para si a obra alheia, geralmente não conseguiu construir sequer uma obra própria.

Escolher um candidato não deveria ser um ato de torcida, mas de responsabilidade. Menos aplauso automático, mais questionamento. Menos narrativa, mais realidade. Menos marketing, mais história de vida. Menos fantasia, mais preparo. Porque, no fim das contas, o problema não é apenas a existência de atores ruins, picaretas e incapazes. O problema maior é quando eles encontram uma plateia desatenta disposta a aplaudir o engano como se fosse virtude.

O cidadão precisa ter cuidado. Muito cuidado. Voto não é brincadeira, nem aposta de loteria, nem concurso de popularidade. Voto é instrumento de poder, e quando entregue a incapazes, oportunistas e vendedores de ilusões, transforma-se numa arma contra o próprio povo. Democracia exige consciência, memória e coragem para não cair no conto do vigário eleitoral.

Edson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO

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