O mundo precisa se preparar para meses de eventos climáticos extremos, incluindo uma possível seca mais aguda na Amazônia e no Nordeste, assim como chuvas torrenciais no Sudeste do país. O apelo é da Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência da ONU.
O impacto, segundo a entidade, poderá ser traduzido em riscos de apagões no Nordeste por conta da falta de chuvas, o aumento de incêndios na Amazônia e deslizamentos perigosos no Sudeste do país.
Nesta terça-feira, a entidade emitiu o primeiro alerta global sobre o fenômeno do El Niño a partir de dezenas de dados fornecidos por agências de clima de vários países. O monitoramento da OMM é considerado como a maior referência no acompanhamento do impacto de fenômenos climáticos no mundo.
No anúncio, o Brasil foi citado como um dos locais que mais podem ser afetados. “Precisamos ficar atentos à geração de energia por hidroelétricas”, alertou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo. “Normalmente, as secas no Nordeste tendem a ser severas e água é um problema”, disse.
Outro destaque se refere à região Norte. “A Bacia Amazônica esteve sob estresse por muitos meses e estava se recuperando”, alertou Celeste Saulo, que apontou para o risco que isso representa.
“O caso do Sudeste, incluindo cidades como São Paulo e Rio, em geral enfrenta enchentes, chuvas intensas e deslizamentos”, disse. “Isso seria a outra consequência”, alertou, apontando para as “consequências em cascada” ao redor do mundo.
Ela destacou que, mesmo sem o El Niño, o Brasil experimentou chuvas “impressionantes” em 2025. “Foram devastadoras em muitas partes do Sul do Brasil”, disse.
Para a chefe da agência da ONU, a América Latina está melhor preparada que em anos anteriores e existe uma “forte capacidade” das instituições no Brasil para dar uma resposta. Mas alerta que o impacto é real. “Os eventos extremos estão cada vez mais extremos e é muito difícil se preparar para algo que está fora das estatísticas”, disse.
90% de certeza
Na avaliação dos organismos internacionais, o momento é de alerta. “A ciência é clara: o El Niño está chegando à nossa porta nos próximos meses com 90% de certeza”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres. “O mundo precisa tratá-lo como o alerta climático urgente que ele é”, insistiu.
Segundo ele, as condições do El Niño “vão alimentar ainda mais o aquecimento global”. “Os impactos serão ainda mais fortes, viajarão ainda mais longe e cruzarão fronteiras com
velocidade devastadora”, alertou.
Em sua avaliação, a única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise – acabar com o
vício em combustíveis fósseis, acelerar a transição para energias renováveis, proteger os mais
vulneráveis e fornecer sistemas de alerta precoce para todos.
No informe, os técnicos destacam que, impulsionado por águas oceânicas excepcionalmente quentes no Pacífico, o El Niño está se desenvolvendo e deve influenciar os padrões globais de temperatura e chuvas, aumentando o risco de eventos climáticos extremos nos próximos meses.
De acordo com a entidade, existe uma probabilidade de 80% de um evento El Niño durante o período de junho a agosto de 2026. As probabilidades de que isso continue até pelo menos novembro são próximas ou superiores a 90%.
“Embora ainda haja alguma incerteza sobre a intensidade e o momento do pico do El Niño, a maioria dos modelos de previsão sugere que ele será pelo menos moderado – e possivelmente forte”, constatou a agência.
As atualizações da OMM sobre El Niño são a fonte de informação mais confiável do mundo para governos, agências humanitárias e setores sensíveis ao clima, como agricultura, saúde, energia e gestão de recursos hídricos.
Quais são os sinais
De acordo com a agência, entre o final de abril e meados de maio, a temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial – a área utilizada como referência de monitoramento – estava se aproximando dos limiares do El Niño.
“Essas anomalias crescentes na superfície são alimentadas por condições subsuperficiais excepcionalmente quentes em todo o Pacífico tropical, com temperaturas superiores a 6 °C acima da média, o que proporciona um reservatório substancial de calor que contribui para o aquecimento superficial observado”, explicou.
Enquanto isso, o Índice de Oscilação Sul – que é o componente atmosférico do El Niño – também é consistente com o desenvolvimento de condições de El Niño.
“Precisamos nos preparar para um evento El Niño potencialmente forte, que exacerbará a seca e as chuvas intensas e aumentará o risco de ondas de calor tanto em terra quanto no oceano”, insistiu a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
“O El Niño mais recente, em 2023-24, foi um dos cinco mais fortes já registrados e desempenhou um papel importante nas temperaturas globais recordes que vimos em 2024”, disse.
A intensidade do El Niño é extremamente significativa – seja ele classificado como fraco, moderado, forte ou muito forte. “Mesmo um El Niño moderado torna alguns eventos climáticos extremos mais prováveis”, indicou a agência.
A OMM não utiliza o termo “super El Niño” porque ele não faz parte das classificações operacionais padronizadas. Mas a agência alerta que o fenômeno pode amplificar os impactos climáticos, pois um oceano e uma atmosfera mais quentes aumentam a disponibilidade de energia e umidade para eventos climáticos extremos, como ondas de calor e chuvas intensas.
Cada evento El Niño é único em termos de sua evolução, padrão espacial e impactos. No entanto, ele é tipicamente associado ao aumento das chuvas em partes do sul da América do Sul, sul dos Estados Unidos, partes do Chifre da África e Ásia Central, e a condições mais secas na América Central, norte da América do Sul, Caribe, Austrália, Indonésia e partes do sul da Ásia.
Fonte ICL Noticias



