Quando Por Édson Silveira
A concessão de prisão domiciliar humanitária por 90 dias ao ex-presidente Jair Bolsonaro escancara, mais uma vez, uma das maiores contradições da política brasileira recente. Aos 71 anos, agora amparado por um gesto de humanidade do Estado, Bolsonaro passa a experimentar exatamente aquilo que, durante anos, ele e seu entorno trataram com desprezo: a dignidade mínima de quem enfrenta fragilidade.
Não faz muito tempo, o discurso era outro. Na pandemia, milhares de brasileiros imploravam por empatia — por oxigênio, por vacina, por respeito. A resposta foi o deboche, a indiferença e a banalização da dor. Hoje, quando a situação se inverte, o argumento humanitário aparece como legítimo. E é mesmo. Sempre foi. A diferença é que, para muitos, esse direito nunca foi reconhecido.
É aqui que entra o contraste inevitável. A decisão do ministro Alexandre de Moraes não é política — é jurídica e, sobretudo, civilizatória. Ao conceder a medida, reafirma que o Estado de Direito não se move por vingança, mas por princípios. Mesmo diante de quem, reiteradamente, atacou as instituições, a resposta vem dentro da legalidade e com respeito à condição humana.
E isso, goste-se ou não, é o que diferencia democracia de autoritarismo.
Já a postura do ex-presidente e de sua família segue o roteiro conhecido: vitimização seletiva. Quando convém, invoca-se a lei; quando não, ataca-se o sistema. Quando o benefício é próprio, exalta-se a decisão; quando é para os outros, questiona-se até a existência de direitos.
No fim das contas, a ironia é inevitável: Bolsonaro só reconhece o valor da humanidade quando ela lhe alcança.
E o Brasil, mais uma vez, assiste a essa incoerência sendo exposta — não pelos adversários, mas pelos próprios fatos.
Édson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO




