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quarta-feira, março 25, 2026
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Rondônia, Lula e a rejeição que não se explica só com números

Por Édson Silveira
Os dados mais recentes de pesquisas em Rondônia mostram um cenário que, à primeira vista, parece contraditório: altos índices de rejeição ao presidente Lula, mesmo diante de um volume significativo de investimentos e obras no estado.
Mas a verdade é que essa contradição só existe para quem ainda insiste em analisar política apenas pela lógica da gestão.
Porque, na prática, política nunca foi só sobre o que se faz — sempre foi sobre como isso é percebido.
E é exatamente aí que está o problema.
Eu olho para Rondônia hoje e vejo um governo federal que executa, investe, entrega.
Mas também vejo um governo que não consegue transformar isso em apoio político.
E isso não é um detalhe.
É um erro estratégico grave.
O governo faz. Mas quem conta essa história?
Essa é a pergunta central.
Porque enquanto o governo federal executa obras em silêncio, a oposição ocupa todos os espaços possíveis — e faz isso com método, disciplina e constância.
Está nas redes sociais.
Está nos grupos de WhatsApp.
Está nas igrejas.
Está nas conversas do dia a dia.
E, gostemos ou não, quem ocupa esses espaços forma opinião.
O resultado é simples:
o eleitor não rejeita necessariamente o que o governo federal — ele rejeita a imagem que construiu do governo.
E essa imagem, em grande parte, não foi construída pelo próprio governo.
Rondônia não é neutra — e fingir isso é um erro
É preciso dizer com clareza: Rondônia hoje tem um perfil político majoritariamente conservador.
Isso influencia:
•a leitura das ações do governo federal
•a forma como as informações circulam
•e, principalmente, a disposição do eleitor em aceitar ou rejeitar determinadas narrativas
Ignorar isso é um erro estratégico.
Subestimar isso é um erro ainda maior.
Política se faz com leitura de realidade, não com desejo.
Obra sem identidade política não gera apoio
Outro ponto que precisa ser enfrentado com honestidade:
Obra pública, por si só, não gera voto.
Se a população não sabe:
•quem fez
•por que fez
•e como aquilo impacta sua vida
a obra vira neutra.
E política não funciona com neutralidade.
Ou você ocupa o espaço, ou alguém ocupa por você.
Hoje, em muitos casos, as obras do governo federal chegam à população sem identidade política clara.
E isso faz com que o impacto eleitoral seja mínimo — ou inexistente.
A percepção econômica pesa mais do que qualquer discurso
Há ainda um fator decisivo: o sentimento econômico.
Não importa quantos investimentos estejam sendo feitos se o cidadão sente:
•dificuldade no supermercado
•pressão no custo de vida
•insegurança financeira
A percepção, certa ou não, vira realidade política.
E essa percepção hoje ainda pesa contra o governo em muitas regiões.
Mas há um ponto que precisa ser dito com responsabilidade: esse cenário pode mudar
Não se trata de um quadro irreversível.
Mas também não vai mudar sozinho.
É preciso decisão política.
O caminho existe — e não é complexo, mas exige coragem
1. Assumir a disputa de narrativa
Não basta governar bem.
É preciso comunicar melhor.
E mais do que comunicar:
* disputar, diariamente, a interpretação dos fatos.
2. Criar presença política real no território
Governo distante não constrói apoio.
É necessário:
•lideranças locais ativas
•vozes que defendam o governo federal dia a dia
•presença organizada nos espaços onde a opinião é formada.
3. Falar com o povo na linguagem do povo
Menos formalidade.
Mais conexão.
O cidadão não quer tecnicismo.
Quer entender, de forma simples:
 “o que mudou na minha vida?”
4. Enfrentar a desinformação sem hesitação
Ignorar narrativas falsas não as faz desaparecer.
É preciso:
•responder
•esclarecer
•e disputar o espaço onde essas narrativas circulam.
5. Entender Rondônia como ela é — não como gostaríamos que fosse
Cada estado tem sua dinâmica.
Quem não adapta a estratégia à realidade local, perde.
Simples assim.
O certo é que:
O que os números mostram em Rondônia não é ausência do governo federal.
É ausência de disputa política proporcional ao que está sendo feito.
Enquanto o governo Lula executa, outros interpretam.
E quem interpreta, influencia.
E quem influencia, decide o rumo político.
Se esse cenário continuar, a tendência é clara:
mais obras, menos apoio.
Mas se houver ajuste de estratégia, presença e comunicação,
o mesmo cenário pode se transformar.
Porque, no fim das contas, política não é apenas sobre fazer.
É sobre fazer…
e garantir que as pessoas saibam, entendam e reconheçam quem fez.
Édson Silveira – advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO

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