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sexta-feira, abril 24, 2026
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Uma bancada de emendas, silêncio e conveniência

Por Édson Silveira

Há algo de profundamente errado quando um estado inteiro não consegue apontar, com clareza, uma grande lei, um grande debate ou uma grande defesa feita por sua bancada federal. Rondônia chegou a esse ponto. E não foi por falta de tempo. Foi por falta de prioridade.

A atual bancada em Brasília especializou-se em um único assunto: liberação de emendas. Transformaram o mandato em planilha de repasse, agenda de foto e anúncio em rede social. Enquanto isso, o país discutia reformas, direitos, desenvolvimento, Amazônia, infraestrutura — e Rondônia? Assistia de longe, sem voz e sem protagonismo.

E o mais grave: as demandas reais da sociedade ficaram em segundo plano. Os trabalhadores seguem sem defesa firme diante da precarização e da perda de direitos. Os empresários, especialmente os pequenos e médios, continuam sem apoio consistente para produzir, gerar emprego e crescer. Os servidores públicos, que sustentam o funcionamento do estado, seguem invisíveis nas grandes pautas nacionais. Falta quem leve essas vozes para Brasília com coragem e compromisso. Falta quem represente, de fato, Rondônia como ela é: diversa, produtiva e cheia de desafios reais.

Não se trata de negar a importância das emendas. Elas são parte do jogo institucional. O problema é quando viram o único jogo. Quando substituem o debate político, a construção legislativa e o compromisso com um projeto de estado. Pior ainda quando entram em cena mecanismos como a chamada “emenda PIX”, celebrada como agilidade, mas frequentemente envolta em opacidade, critérios frouxos e uso pouco republicano. Dinheiro público não pode virar moeda de conveniência.

O resultado é um conjunto de mandatos de resultado curto, que entregam pequenas obras, mas não constroem soluções estruturais. Atendem bases eleitorais, mas não defendem um caminho de desenvolvimento para Rondônia. Garantem visibilidade local, mas não acumulam respeito nacional. No fundo, funcionam mais para manter o próprio mandato — com seus privilégios e mordomias — do que para transformar a realidade de quem trabalha, paga impostos e espera retorno.

E quando o país exige posição, muitos preferem o silêncio confortável. Afinal, posicionar-se dá trabalho, cria conflito e pode custar apoio. Mais fácil é cortar fita, anunciar recurso e evitar temas espinhosos. A conta chega depois — e chega para o eleitor.

No Senado, há nuances. É justo reconhecer que Confúcio Moura tem sido o único da bancada a apoiar, de forma consistente, as ações do governo federal em Rondônia, contribuindo para a chegada de investimentos. Ainda assim, o cenário geral permanece marcado por indefinições políticas e baixa clareza sobre rumos. Já Marcos Rogério escolheu trilha própria, mirando o governo do estado e tentando capitalizar um campo ideológico específico. O eleitor saberá avaliar.

O ponto central é outro: Rondônia precisa voltar a ter voz. Precisa de parlamentares que entendam que emenda é instrumento, não finalidade; que projeto de desenvolvimento não se faz com repasses pulverizados; que representação exige presença nos grandes debates, coragem para enfrentar interesses e compromisso com quem vive do trabalho.

Não é uma cruzada moral. É uma exigência mínima de qualidade política.

O eleitor tem, nas mãos, a chance de corrigir a rota. Avaliar, comparar e escolher melhor. Premiar quem apresentou ideias, postura e resultados estruturantes — e não apenas anúncios de ocasião. Cobrar coerência de quem pede confiança.

Se quiser mais do mesmo, basta repetir os mesmos nomes.
Se quiser mudança, ela começa pelo voto consciente.

Rondônia pode mais. E já passou da hora de exigir isso.

Edson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual do PT/RO e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO

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