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terça-feira, outubro 6, 2026
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Nada pega em Flávio. Mas a conta pega no povo

Por Édson Silveira

O Brasil parece ter inventado uma modalidade eleitoral extraordinária: a indignação seletiva. O eleitor exige transparência, desde que ela não ilumine seu candidato. Cobra explicações, desde que as perguntas sejam dirigidas ao adversário. Defende o combate à corrupção, mas, quando o desconforto chega perto da própria preferência política, descobre subitamente as virtudes do silêncio.

Flávio Bolsonaro recebeu aproximadamente 56,1 milhões de votos no primeiro turno. Lula, 53,8 milhões. É uma vantagem eleitoral, não uma coroação. A eleição continua aberta, por mais que alguns já estejam escolhendo a moldura do retrato presidencial.

É como ver o passageiro de um barco furar o próprio casco para protestar contra o capitão — e comemorar porque a água entrou. A provocação traduz uma contradição: depender de políticas que ajudam a pôr comida na mesa, manter o filho estudando e conquistar uma casa, enquanto se entrega um cheque em branco a projetos cujo impacto sobre esses direitos precisa ser examinado.

Há quem celebre o “Estado mínimo” com entusiasmo de acionista, embora dependa do posto de saúde, da escola pública e da proteção social. É uma espécie de milionário por procuração: assume o discurso dos muito ricos e continua pagando as contas com salário apertado.

O problema não é o pobre discordar de Lula. Ninguém deve obediência eleitoral a governante algum. O problema é substituir a análise das consequências pelo prazer de derrotar um inimigo imaginário. O antipetismo não paga aluguel. A provocação no grupo de WhatsApp não compra remédio. E a satisfação de “acabar com a esquerda” não serve de almoço.

Também merece atenção a curiosa elasticidade da cobrança moral. Relatórios da Polícia Federal detalharam mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio e Eduardo negam irregularidades. Isso exige apuração e respostas públicas, não absolvição automática pela torcida.

Mas, para o fã incondicional, a fiscalização termina exatamente onde começa o sobrenome do candidato. Antes dessa fronteira, tudo é escândalo. Depois dela, tudo é perseguição. Que confortável: o eleitor vira advogado de defesa sem sequer exigir que seu cliente explique o processo.

O mesmo rigor deve valer para a economia. Quem promete reduzir despesas precisa dizer quais despesas, quem perderá recursos e quais serviços serão protegidos. “Eficiência” é uma palavra bonita. Na propaganda, cabe num sorriso; na vida real, precisa caber no orçamento sem expulsar o cidadão do atendimento.

Lula também precisa ouvir as urnas. Deve explicar melhor suas escolhas, reconhecer problemas e apresentar respostas concretas. Uma campanha que pretende virar o resultado precisa conversar com quem se afastou, inclusive com quem votou no adversário.

Defender Lula, neste segundo turno, é defender uma orientação política em que alimentação, moradia, educação e saúde sejam compromissos públicos. Os mais humildes precisam de proteção concreta, oportunidades e um governo que os enxergue além das estatísticas.

O Brasil ainda pode trocar a torcida pela reflexão. Pode perguntar antes de aplaudir. Pode exigir explicações antes de conceder confiança.

Porque, quando a água invade o barco, o entusiasmo contra o capitão não mantém ninguém à tona. E quem não tem bote, reserva financeira ou porto seguro costuma enfrentar primeiro as consequências.

Nada pegar em um candidato não significa que nada acontecerá ao país.

A conta chega. E quem tem menos costuma ter muito mais dificuldade para pagá-la.

Édson Silveira
Advogado, administrador, professor e militante do PT/RO.

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