Por: Augusto Branco *
No Brasil, o Estado segue sendo o grande protagonista do desenvolvimento, e um dos motivos é porque numa economia de juros exorbitantes, os mais ricos preferem viver de renda a empreender ou inovar – e qualquer político que mencione a redução dos juros será imediatamente cercado pela histeria de um movimento ideológico que logo aponta o monstro da inflação no horizonte. Curiosamente, esses mesmos economistas nunca mencionam que os EUA e diversos países da Europa convivem com juros baixíssimos sem qualquer sinal de hiperinflação.
Em vez de reduzir os juros (o que automaticamente encareceria menos a dívida pública), os economistas da Faria Lima preferem sugerir cortes, tesouraços que preservam a mamata rentista à qual eles estão acostumados.
Com um Banco Central independente, torna-se quase impossível para um governo controlar os juros no Brasil: o que se tem é um BC independente do governo, mas escravo da Faria Lima, que por sua vez consome toda a gordura excedente das contas públicas em dívidas impagáveis.
Sem controle sobre a política de juros e tendo que se contentar com movimentações pífias de 0,5% para cima ou para baixo, se um governante deseja manter o Estado de Bem-Estar Social, precisa aprender a gastar melhor. E isso se torna ainda mais urgente quando a maioria dos governos e prefeituras brasileiras é extremamente dependente dos repasses da União. A receita para o ter sucesso com isso, entretanto, é muito simples: quanto ao funcionamento da máquina pública, os gestores precisam ser pragmáticos: só podem gastar aquilo que arrecadam. Isso exige disciplina, controle e eficiência. Mas os investimentos devem ser avaliados por outro critério: é preciso analisar o retorno que produzirão, seja em inovação, produtividade ou, claro, em benefício para a sociedade.
O investimento em saneamento, por exemplo, tem um custo hoje cujos resultados serão colhidos por décadas, com menos doenças, menos demanda na saúde pública e melhores condições de vida. Nesse caso específico, a economia do gestor é suficiente se observados os preços praticados no mercado. Mas como mensurar o custo da inovação? Quanto custa desenvolver uma tecnologia disruptiva? Qual o ganho que tal tecnologia pode gerar para a sociedade? E quanto custa desenvolver o potencial dos recursos humanos?
Muitos talentos do setor público são perdidos para a iniciativa privada e até para outros países porque o Brasil não possui um critério definido para investimento em inovação. Tenta-se, inclusive, estimular a inovação de forma gratuita, o que é mais selvagem que a cartilha do empreendedor mais liberal. Ora, como falar em meritocracia numa economia capitalista sem recompensar financeiramente o mérito? Se governos e prefeituras não quiserem continuar perdendo o bonde da inovação, precisam urgentemente rever seus critérios de investimento no setor, inclusive com leis e sistemas de controle mais flexíveis.
Por fim, no que diz respeito à produtividade, como mensurar os ganhos de iniciativas para formar lideranças e desenvolver o capital humano a partir de uma perspectiva meramente financeira, que reduz todo o potencial de benefícios a uma planilha de custos que compara preços praticados? A régua que se usa, muitas vezes, é a régua errada: escolhe-se gastar menos, ao invés de gastar melhor. Confunde-se desenvolvimento técnico com desenvolvimento humano, e colhem-se frutos menos nutritivos por isso.
Os gestores precisam ter coragem para investir em inovação no setor público e no desenvolvimento humano, porque isso está intrinsecamente atrelado à produtividade. Mas, na ânsia de gastar menos, os gestores públicos sonegam atenção a isso, preferindo fazer o velho feijão com arroz do subdesenvolvimento, optando pelo seguro, pelo prático e pelo barato que sai caro.
*O autor é escritor e presidente do Instituto Agir




