Por Édson Silveira
A paz também precisa ser medida pela vida de quem consegue chegar ao fim do dia com comida na mesa, dignidade e alguma confiança no amanhã. Uma criança que dorme com fome não vive em paz. Uma família condenada à miséria não experimenta a segurança que os discursos oficiais prometem. É a partir dessa compreensão que defendo o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para receber o Prêmio Nobel da Paz: sua contribuição mais consistente está em transformar o combate à fome em responsabilidade de Estado e em compromisso internacional.
Há razões políticas, sociais e humanitárias para essa defesa. Elas devem ser examinadas com seriedade, com resultados verificáveis e sem a pretensão de transformar um governante em figura acima da crítica. O reconhecimento que proponho se sustenta na ligação entre justiça social, cooperação entre os povos e construção de condições duradouras de paz.
O resultado das eleições brasileiras de 2026 também revelou a força do vínculo afetivo entre Lula e milhões de brasileiros. No segundo turno, realizado em 25 de outubro, ele conquistou 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%: uma vantagem de 4.430.191 votos. A vitória veio de virada: depois de terminar o primeiro turno com 45,16%, atrás dos 47,03% do adversário, Lula reverteu a disputa e assegurou seu quarto mandato presidencial. Na minha avaliação, essa votação expressiva traduz o amor, a confiança e o reconhecimento de milhões de pessoas por uma liderança que associam à dignidade e à esperança. Esse apoio popular reforça a dimensão política de sua trajetória, enquanto a defesa do Nobel se fundamenta em sua contribuição humanitária e internacional. [9]
Essa ligação já foi reconhecida pelo próprio Comitê Nobel. Em 2020, o Programa Mundial de Alimentos recebeu o prêmio por seu trabalho contra a fome, por contribuir para a paz em regiões afetadas por conflitos e por enfrentar o uso da fome como arma de guerra. O precedente não torna automática a premiação de qualquer governante que desenvolva políticas sociais. Demonstra, porém, que a segurança alimentar pertence ao campo da construção da paz. [1]
Lula merece ser considerado justamente por ter feito dessa causa um eixo persistente de sua atuação. Ao colocar a alimentação entre as prioridades do governo, ajudou a deslocar o debate: a fome deixou de ser tratada como fatalidade e passou a ser enfrentada como problema que exige orçamento, coordenação e decisão política.
A trajetória brasileira oferece elementos concretos para essa avaliação. O país saiu do Mapa da Fome em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff, depois de um processo de fortalecimento de políticas sociais que atravessou os dois primeiros mandatos de Lula. Transferência de renda, valorização dos rendimentos do trabalho, alimentação escolar e participação social compuseram esse esforço. Respeitar essa cronologia fortalece o argumento e reconhece o caráter coletivo da conquista. [2]
O mérito de uma liderança política está, em parte, na capacidade de organizar prioridades que mobilizam instituições e sobrevivem ao próprio mandato. Nenhum presidente produz sozinho um resultado dessa dimensão. Servidores, pesquisadores, agricultores, movimentos sociais, estados e municípios têm participação indispensável. A responsabilidade de quem governa é criar condições para que esse trabalho encontre direção, recursos e continuidade.
O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025, segundo o relatório da FAO referente ao triênio 2022–2024. Em março de 2026, a própria organização voltou a registrar o país entre aqueles com prevalência de subalimentação inferior a 2,5% e elogiou o compromisso e a liderança global de Lula nessa área. O indicador não significa que a fome tenha desaparecido, nem elimina outras formas de insegurança alimentar. Registra um avanço relevante que precisa ser protegido e aprofundado. [3]
Minha leitura política é que esse percurso confere consistência à defesa do Nobel. Há uma diferença entre pronunciar discursos sobre os pobres e organizar o Estado para enfrentar a privação. A contribuição de Lula ganha força quando sua mensagem encontra correspondência em políticas e resultados, sujeitos à avaliação pública.
Essa experiência ganhou dimensão internacional com a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada em 18 de novembro de 2024, durante a cúpula do G20 no Rio de Janeiro. A iniciativa nasceu com 148 membros fundadores, incluindo 82 países, e foi concebida para aproximar conhecimento, financiamento e programas adaptados às necessidades de cada sociedade. [4]
Seu valor está nessa tentativa de transformar convergência diplomática em capacidade de execução. Compartilhar experiências de transferência de renda, alimentação escolar e apoio à produção de alimentos pode ajudar países com menos recursos a construir suas próprias respostas. As metas da Aliança ainda precisam ser cumpridas e avaliadas; compromissos anunciados não podem ser contabilizados como benefícios já entregues.
Mesmo com essa ressalva, considero importante que uma liderança de um país em desenvolvimento tenha levado a fome ao centro de uma reunião das maiores economias. Uma ordem internacional que discute investimentos, comércio e tecnologia precisa responder também por quem continua sem o básico. A credibilidade da cooperação depende dessa resposta.
Há, ainda, a atuação diplomática de Lula em defesa de soluções negociadas para conflitos. Em seu discurso à Assembleia Geral da ONU de 2025, ele voltou a defender uma saída diplomática para a guerra na Ucrânia, mencionando iniciativas de diálogo, entre elas o grupo criado por Brasil e China. Trata-se de uma posição defendida pelo presidente, que deve ser distinguida de um acordo de paz efetivamente alcançado. [5]
Esse ponto exige precisão. Negociar uma solução duradoura requer respeito à soberania, à integridade territorial e aos direitos das populações atingidas. Uma proposta precisa considerar a participação e a segurança daqueles que sofreram a guerra. A defesa do diálogo ganha legitimidade quando enfrenta essas exigências, em vez de apenas pedir que as armas se calem.
Também considero relevante a insistência de Lula na proteção da população palestina. Na mesma intervenção na ONU, o presidente condenou os ataques terroristas do Hamas, denunciou a devastação de Gaza e defendeu a existência de um Estado palestino. Essa posição expressa uma compreensão que considero essencial: a segurança de israelenses e palestinos exige reconhecimento de direitos e proteção de vidas civis. [5]
O esforço pela paz precisa sustentar, com a mesma firmeza, a libertação de reféns, o acesso humanitário, o enfrentamento da punição coletiva e a responsabilização por violações. Nenhuma criança perde seu direito à vida em razão da nacionalidade, da religião ou das escolhas de um governo. A relevância de uma liderança internacional também se mede por sua disposição de insistir nesses princípios quando eles se tornam politicamente inconvenientes.
Defendo, portanto, uma diplomacia brasileira capaz de conversar com diferentes governos sem abrir mão de critérios. O diálogo é um instrumento para produzir resultados e proteger pessoas. Sua força depende da coerência com que se condenam agressões e violações, inclusive quando cometidas por parceiros.
A agenda ambiental acrescenta outra dimensão à defesa de Lula. O Nobel já reconheceu a relação entre clima e paz ao premiar, em 2007, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e Al Gore. A contribuição ambiental de um governante pode, assim, integrar a avaliação de seu trabalho pela segurança coletiva. [6]
No Brasil, o INPE divulgou em outubro de 2026 uma taxa de desmatamento de 3.335 quilômetros quadrados na Amazônia Legal para o período de agosto de 2025 a julho de 2026, com redução de 41,8% em relação ao ciclo anterior. São resultados que dão substância à discussão ambiental e que precisam ser acompanhados de continuidade na fiscalização e na proteção dos territórios. [7]
Como homem de Rondônia e da Amazônia, vejo essa responsabilidade de perto. Preservar a floresta exige oferecer condições dignas de vida a quem nela vive. A população amazônica precisa de educação, saúde, infraestrutura e oportunidades econômicas compatíveis com a conservação. Uma política ambiental socialmente justa deve proteger os povos indígenas, as comunidades tradicionais, os trabalhadores e os produtores comprometidos com a sustentabilidade.
Defender Lula para o Nobel também exige disposição para cobrar coerência. As escolhas sobre energia, infraestrutura, uso da terra e desenvolvimento devem ser confrontadas com os compromissos ambientais. Na política externa, a defesa dos direitos humanos deve alcançar todas as populações. O apoio político se torna mais responsável quando reconhece essas exigências.
O prêmio não certifica a perfeição de um governo. A avaliação deve se concentrar na contribuição de uma pessoa ou instituição para a paz. No caso de Lula, considero especialmente relevante a combinação entre combate à fome, mobilização internacional e defesa de saídas diplomáticas. São frentes distintas, mas conectadas pela ideia de que a segurança humana depende de direitos e cooperação.
Também é necessário tratar com rigor qualquer campanha em favor de sua premiação. O Nobel não é decidido por votação popular, e o Comitê mantém os registros de indicações sob sigilo por 50 anos. Uma mobilização pública pode apresentar argumentos e reunir apoio, mas não equivale a reconhecimento oficial do mérito pelo Comitê. [8]
É nesse sentido que apoio a mensagem “Lula for Peace”. Ela pode expressar uma defesa fundamentada de sua trajetória e, ao mesmo tempo, assumir um compromisso com as causas que tornam essa defesa possível. A campanha ganha valor quando amplia o debate sobre a fome, os direitos humanos e a cooperação entre os povos.
Lula merece receber o Prêmio Nobel da Paz porque ajudou a demonstrar que enfrentar a fome é uma forma concreta de construir paz. Sua contribuição mais duradoura poderá estar nessa insistência: fazer com que governos e instituições internacionais respondam pela dignidade de pessoas que, durante muito tempo, foram tratadas como números.
Reconhecer essa trajetória seria valorizar também o trabalho coletivo que transforma políticas públicas em alimento, proteção e esperança. A paz que defendo precisa alcançar a mesa das famílias, a vida das crianças e o futuro dos povos.
Édson Silveira — advogado, administrador, professor federal aposentado, militante e membro da Executiva Estadual do PT/RO.
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Fontes consultadas:
1. Comitê Nobel, justificativa do Nobel da Paz de 2020 ao Programa Mundial de Alimentos: https://www.nobelprize.org/prizes/peace/2020/press-release/
2. Consea, saída brasileira do Mapa da Fome em 2014: https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/consea/noticias/2014/brasil-sai-do-mapa-da-fome-segundo-fao-onu
3. MDS, saída do Mapa da Fome em 2025, e FAO, conferência regional de março de 2026: https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/brasil-sai-do-mapa-da-fome-da-onu-conquista-historica-reflete-politicas-publicas-eficazes e https://www.fao.org/newsroom/detail/fao-members-LARC39-fighting-hunger/en
4. MDS, lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza: https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/lideres-mundiais-lancam-a-alianca-global-contra-a-fome-e-a-pobreza
5. Itamaraty, discurso de Lula à 80ª Assembleia Geral da ONU, 2025: https://www.gov.br/mre/en/content-centers/speeches-articles-and-interviews/president-of-the-federative-republic-of-brazil/speeches/president-lula2019s-speech-at-the-opening-of-the-general-debate-of-the-80th-un-general-assembly
6. Comitê Nobel, prêmio de 2007 ao IPCC e a Al Gore: https://www.nobelprize.org/prizes/peace/2007/9368-engelsk/
7. INPE, dados do Prodes divulgados em outubro de 2026: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/brasil-alcanca-menores-taxas-de-desmatamento-da-serie-historica-na-amazonia-e-no-cerrado/
8. Instituto Nobel, processo de indicação e sigilo: https://www.nobelpeaceprize.org/nobel-peace-prize/nomination/
9. TSE, resultado do segundo turno de 2026, e Agência Câmara, comparação com o primeiro turno: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-anuncia-reeleicao-de-lula-e-faz-balanco-do-2o-turno-das-eleicoes-2026 e https://www.camara.leg.br/noticias/1313705-lula-e-reeleito-presidente-com-quase-52-dos-votos-validos-no-2o-turno




