Crédito caro não é acidente. É projeto. Dívida no Brasil não é falha. É modelo de negócio
Por Edson Silveira
O Brasil, mais uma vez, tenta resolver um problema estrutural com uma solução emergencial. E, desta vez, é preciso reconhecer: o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou ao colocar o tema do endividamento das famílias no centro da agenda pública.
Programas como o Desenrola não são maquiagem. São alívio real. São a diferença entre o nome limpo e a porta fechada. São o respiro de milhões de brasileiros que estavam sufocados por dívidas muitas vezes pequenas no valor, mas gigantes no impacto.
Mas aqui vai a verdade que poucos têm coragem de dizer com todas as letras:
isso é só o começo — e está longe de ser suficiente.
Porque o problema do Brasil não é apenas a dívida.
O problema é o sistema que fabrica a dívida.
E esse sistema tem nome, lógica e interesse.
Enquanto o governo tenta resgatar o cidadão, o sistema financeiro trabalha em sentido oposto. É uma engrenagem quase perfeita: oferece crédito caro, estimula o consumo sem educação financeira e depois lucra com o atraso, com o rotativo, com o desespero.
Não é falha.
É modelo de negócio.
E aqui entra o ponto central — e incômodo para muita gente poderosa: o Brasil convive com uma das taxas de juros mais altas do mundo.
Não por acaso.
Mas por escolha política e econômica.
O resultado é perverso e previsível: o crédito vira armadilha. O que deveria ser instrumento de desenvolvimento se transforma em mecanismo de aprisionamento financeiro.
O cidadão pega um empréstimo para resolver um problema imediato. Resolve. Respira.
Mas logo está de volta ao mesmo ponto — ou pior.
E o sistema agradece.
Como se não bastasse, um novo elemento agrava esse cenário: a explosão das apostas. Plataformas que operam na fronteira da legalidade, capturando justamente quem está mais vulnerável. Gente endividada, emocionalmente pressionada, sendo empurrada para o risco com a promessa ilusória de ganho fácil.
É o capitalismo na sua face mais predatória: lucrar com a fragilidade.
Por isso, o debate precisa subir de nível.
Não basta renegociar dívida.
É preciso impedir que ela se reproduza.
E isso passa por medidas que vão muito além de programas emergenciais:
Aliviar hoje quem está endividado;
Reduzir o custo do crédito;
Proteger as famílias do ciclo da dívida;
Enfrentar os fatores que empurram o brasileiro para o risco.
O governo Lula dá um passo importante ao atacar o efeito.
Mas o país precisa, com urgência, enfrentar a causa.
E aqui cabe uma crítica direta — e necessária: enquanto o discurso se fala em crescimento, inclusão e justiça social, a política de juros ainda funciona como um freio brutal sobre a vida real das pessoas.
Não existe política social robusta convivendo harmonicamente com crédito caro.
Uma anula a outra.
É incoerente aliviar a dívida com uma mão e permitir que o sistema continue produzindo novas dívidas com a outra.
Responsabilidade financeira não é só do cidadão que assina o contrato.
É também de quem define as regras do jogo.
De quem regula.
De quem lucra.
O Brasil não precisa apenas de acesso ao crédito.
Precisa de um sistema que não transforme crédito em condenação.
O Desenrola é necessário.
Mas sozinho, é enxugar gelo.
Se quisermos de fato proteger as famílias brasileiras, o caminho é outro: enfrentar interesses, mexer nas estruturas e, principalmente, ter coragem política, que não falta ao governo e que nosso congresso inimigo do povo, não colabora.
Porque no fim das contas, não se trata apenas de economia.
Trata-se de dignidade.
E dignidade não pode ter juros abusivos.
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO



