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terça-feira, maio 5, 2026
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Crédito caro não é acidente. É projeto. Dívida no Brasil não é falha. É modelo de negócio

Crédito caro não é acidente. É projeto. Dívida no Brasil não é falha. É modelo de negócio

Por Edson Silveira

O Brasil, mais uma vez, tenta resolver um problema estrutural com uma solução emergencial. E, desta vez, é preciso reconhecer: o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou ao colocar o tema do endividamento das famílias no centro da agenda pública.

 

Programas como o Desenrola não são maquiagem. São alívio real. São a diferença entre o nome limpo e a porta fechada. São o respiro de milhões de brasileiros que estavam sufocados por dívidas muitas vezes pequenas no valor, mas gigantes no impacto.

 

Mas aqui vai a verdade que poucos têm coragem de dizer com todas as letras:

isso é só o começo — e está longe de ser suficiente.

Porque o problema do Brasil não é apenas a dívida.

O problema é o sistema que fabrica a dívida.

E esse sistema tem nome, lógica e interesse.

Enquanto o governo tenta resgatar o cidadão, o sistema financeiro trabalha em sentido oposto. É uma engrenagem quase perfeita: oferece crédito caro, estimula o consumo sem educação financeira e depois lucra com o atraso, com o rotativo, com o desespero.

Não é falha.

É modelo de negócio.

E aqui entra o ponto central — e incômodo para muita gente poderosa: o Brasil convive com uma das taxas de juros mais altas do mundo.

Não por acaso.

Mas por escolha política e econômica.

O resultado é perverso e previsível: o crédito vira armadilha. O que deveria ser instrumento de desenvolvimento se transforma em mecanismo de aprisionamento financeiro.

O cidadão pega um empréstimo para resolver um problema imediato. Resolve. Respira.

Mas logo está de volta ao mesmo ponto — ou pior.

E o sistema agradece.

Como se não bastasse, um novo elemento agrava esse cenário: a explosão das apostas. Plataformas que operam na fronteira da legalidade, capturando justamente quem está mais vulnerável. Gente endividada, emocionalmente pressionada, sendo empurrada para o risco com a promessa ilusória de ganho fácil.

É o capitalismo na sua face mais predatória: lucrar com a fragilidade.

Por isso, o debate precisa subir de nível.

Não basta renegociar dívida.

É preciso impedir que ela se reproduza.

E isso passa por medidas que vão muito além de programas emergenciais:

Aliviar hoje quem está endividado;

Reduzir o custo do crédito;

Proteger as famílias do ciclo da dívida;

Enfrentar os fatores que empurram o brasileiro para o risco.

O governo Lula dá um passo importante ao atacar o efeito.

Mas o país precisa, com urgência, enfrentar a causa.

E aqui cabe uma crítica direta — e necessária: enquanto o discurso se fala em crescimento, inclusão e justiça social, a política de juros ainda funciona como um freio brutal sobre a vida real das pessoas.

Não existe política social robusta convivendo harmonicamente com crédito caro.

Uma anula a outra.

É incoerente aliviar a dívida com uma mão e permitir que o sistema continue produzindo novas dívidas com a outra.

Responsabilidade financeira não é só do cidadão que assina o contrato.

É também de quem define as regras do jogo.

De quem regula.

De quem lucra.

 

O Brasil não precisa apenas de acesso ao crédito.

Precisa de um sistema que não transforme crédito em condenação.

 

O Desenrola é necessário.

Mas sozinho, é enxugar gelo.

 

Se quisermos de fato proteger as famílias brasileiras, o caminho é outro: enfrentar interesses, mexer nas estruturas e, principalmente, ter coragem política, que não falta ao governo e que nosso congresso inimigo do povo, não colabora.

 

Porque no fim das contas, não se trata apenas de economia.

Trata-se de dignidade.

 

E dignidade não pode ter juros abusivos.

Edson Silveira

Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO

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