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terça-feira, maio 12, 2026
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De causas e de campanhas: como a política é compreendida pela massa

 

Por Elizeu Lira (*)

 

A minha formação política, marxista, sempre me orientou a compreender que as massas populares se moviam por causas que refletissem suas necessidades coletivas, de modo a produzir movimentos de luta que envolvessem a todos em um único propósito. E, no caso de conquista de uma, outras causas surgiriam e os movimentos se seguiriam. No caso da não conquista da causa em questão, as massas se reorganizariam e ajustariam suas estratégias até o alcance dos objetivos – o que conformaria o processo dialético sugerido por Marx.

Esta afirmação pode ser verdadeira em ambiente onde a consciência de classe seja predominante entre indivíduos que compõe a massa de proletários. Em sociedade que a visão sobre o papel que cada um tem no coletivo é dúbia e bombardeada por informações distorcidas, a convergência de interesses não existe – e predomina o individualismo e a “autofagia de classe”.

No Brasil esta última versão predomina. Em Rondônia, por sua vez, é possível dissecar este fenômeno com muita clareza, em todos os espaços da vida em sociedade. Mas é nos períodos eleitorais que o fenômeno se escancara.

Nas últimas eleições ficou evidente a ausência de propostas – ou de “causas” – defendidas pelos candidatos, com exceção de alguns ensaios produzidos por aqueles que buscavam os cargos executivos, por razões obvias. No caso dos proporcionais, os candidatos que basearam suas campanhas em propostas foram completamente ignorados pela massa de eleitores.

Numa rápida avaliação dos discursos, dos materiais de campanha, dos conteúdos das redes sociais e dos programas de rádio e televisão, constata-se que os candidatos eleitos para a Câmara Federal e para a Assembleia Legislativa, no estado de Rondônia, não descreveram em nenhum deles uma linha sequer do que fariam se caso alcançassem o mandato. Foram eleitos, portanto, candidatos sem causas.

Ora, as causas não interessam à massa? Em geral, a defesa de causa, na visão dos próprios candidatos, lhe reduz o espaço de atuação política. A grande maioria avalia que quanto mais temas se meter, mais consegue a simpatia das pessoas. Defender este ou aquele tema, apenas, lhe diminui.

Sob o ponto de vista do eleitorado, as causas defendidas pelos candidatos são dispensáveis. Para estes, os problemas que enfrentam não podem ou não serão solucionados pela política, ou pelos políticos. O histórico de negação da política como meio de resolver problemas coletivos não foi construído pela massa de eleitores – e esta já abdicou de crer na política como o espaço de defesas das causas.

No entanto, a massa que não acredita em causas, crê em abundância de recursos públicos nas campanhas eleitorais. E na visão da massa que não crê em causas, dinheiro público é uma realidade acessível a todos. Assim, as escolhas se baseiam em critérios que lhes facilitem ganhar dinheiro com este ou aquele (ou com todos) candidato durante as campanhas.

Com a consolidação desta cultura, perde a política, perde a sociedade.

Elizeu Lira

(*) Elizeu Lira, 59 anos, sociólogo, especialista em políticas públicas.

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