A tesoura de Flávio vai cortar o quê?
Por Édson Silveira
Flávio Bolsonaro quer governar o Brasil prometendo um “tesouraço”. Antes de entregar a tesoura, o eleitor precisa perguntar: ela vai cortar privilégios ou direitos? Porque anunciar economia no palanque é fácil. Difícil é explicar quem ficará sem atendimento, sem oportunidade e com menos dinheiro no bolso.
Meu amigo, o jornalista Roberto Kuppê, usa uma comparação que incomoda justamente porque provoca reflexão: “É como a formiga votar no tamanduá”.
Não se trata de insultar o eleitor. Trata-se de perguntar por que alguém daria um cheque em branco a um projeto que pode enfraquecer serviços e direitos importantes para sua própria vida. Antipatia partidária não paga remédio, não constrói escola e não coloca comida na mesa.
Reportagens apontam que a equipe econômica de Flávio estuda mudanças nos reajustes previdenciários e no financiamento da saúde e da educação. A campanha contesta que essas medidas façam parte do plano oficial. Então precisa explicar direito. Não basta acenar para o mercado numa reunião e tranquilizar o eleitor no palanque. A conta é uma só, e alguém vai pagá-la. (www1.folha.uol.com.br)
Afinal, onde essa tesoura pretende cortar?
Se é para combater desperdício e privilégio, ótimo. Mas hospital, escola e aposentadoria não são gordura sobrando. É muito confortável chamar tudo de “gasto” quando o corte acontece na vida dos outros.
O SUS é a consulta, a vacina, a cirurgia e o tratamento que não podem esperar. Educação pública é a chance de estudar e construir um futuro melhor. Ciência é pesquisa, desenvolvimento e resposta a problemas reais. Tudo isso precisa de dinheiro, planejamento e respeito. Discurso bonito não compra equipamento nem contrata profissionais.
Pé-de-Meia, Minha Casa, Minha Vida e Luz para Todos também precisam ser defendidos e melhorados. Estudante permanecer na escola, família conquistar uma casa e comunidade ter energia são objetivos de um país que pretende avançar. Não deveriam virar vítimas de uma tesoura apresentada como solução milagrosa.
E o trabalho? Segundo levantamento do UOL, o plano de Flávio não apresenta proposta para acabar com a escala 6×1. Para quem trabalha seis dias e descansa um, esse silêncio fala alto. Parece que o descanso continua sendo excelente — desde que seja o dos outros. (noticias.uol.com.br)
Defendo o fim da escala 6×1, aumento real do salário mínimo e geração de empregos. O sucesso da economia precisa aparecer na vida das pessoas. Se os números melhoram e a família continua sufocada, há alguma coisa errada nessa comemoração.
Também defendo uma reforma fiscal que enfrente privilégios e um Judiciário mais acessível, transparente e eficiente. Reforma séria resolve problemas. Revanche política apenas cria outros.
Flávio representa a continuidade do bolsonarismo e precisa responder pelo projeto que pretende levar ao poder. Voz mais baixa e sorriso ensaiado não bastam para esclarecer o que mudou. Embalagem nova não garante conteúdo melhor.
O Brasil precisa de democracia, ciência, educação, soberania e estabilidade econômica com proteção social. Precisa de propostas claras, não de um concurso para descobrir quem consegue esconder melhor a conta até a eleição.
Lula tem erros? Tem. Precisa ser cobrado? Sempre. Apoiar sua reeleição não significa fechar os olhos. Significa reconhecer que, entre as alternativas em disputa, seu projeto oferece melhores condições para preservar direitos e avançar nas políticas sociais.
Por isso, defendo a reeleição de Lula.
Ainda há tempo para comparar, refletir e mudar de opinião. A eleição passa. A consequência do voto fica.
Antes de aplaudir o tesouraço, convém descobrir se o que será cortado é justamente aquilo de que o Brasil precisa.
Édson Silveira
Advogado, administrador, professor e militante do PT/RO.



