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terça-feira, maio 12, 2026
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Recebi uma carta com muito amor de Rosângela Hilário

Por Roberto Kuppê (*)

Na tarde de hoje, sexta-feira, 23, recebi uma carta on line da candidata a deputada federal Rosângela Hilário (PDT-RO). Com um singelo recado “Para você! Com um carinho e o desejo que possamos nos conhecer logo!”, ela fez minha tarde mais feliz, não menos, preocupado com o futuro de Rondônia, sobretudo com as classes menos favorecidas. Pedi autorização à ela para publicar. Autorizou: “Pode. Mas, era só um carinho a um amigo que me ouve. Muito importante nesta fase!”. Disse então a ela: “É mais do que uma carta. É um depoimento de alguém sensível como eu. Senti isso na minha campanha de 2010”. Pelo que ela complementou: “As vezes dói, outras fortalece. Mas, sigo!”.

Muito sensibilizado, a reproduzo:

Meu querido amigo Kuppe,

Permita-me chamá-lo amigo: você tem me tratado com o carinho e a deferência que só os confrades, cumplices em fraternidade e afetividade se tratam. Independente dos rumos que a vida tome doravante, eu jamais esquecerei do afago, das boas palavras e do carinho quando eu precisei. Gratidão!

Vou te fazer um inventário do que vi nesta campanha que se encerra semana que vem: um povo triste, faminto de justiça, de cultura, de lazer e de afeto. Vi pessoas que não são a prioridade de ninguém e vivem, invisibilizadas pelas políticas públicas inexistentes, enfraquecidas ou que não lhes alcançam. Vi pessoas me dizerem com olhos marejados que políticos não as procuram nem para pedir votos. Vi crianças maravilhadas por verem ocupando esse espaço, que elas não sabem o que é, mas que sabem ser importante; Crianças que quiseram abraços, me pediram escola e me falaram de fome. Mulheres como eu (pretas, gordas e pobres) me cumprimentaram sorridentes em supermercados, feiras, salões comunitários de conjuntos populares. A seu modo me explicaram o que significava para elas ser e ter representatividade. Eu me senti gigante por, pelo menos naquele momento, levar-lhes esperança, um arremedo de alegria e fé.

Mas, eu vi também a força do poder financeiro esparramado em bandeiras esfregando em nossos rostos que somos só Dom Quixotes fortalecendo moinhos de vento. Vi pessoas exauridas, suadas e com uma pseudo alegria distribuindo “santinhos” que emporcalham a cidade  e não promovem troca de ideias para fortalecimento da democracia. Vi pessoas que sabem que estão trocando a creche dos filhos, o ambulatório de especialidades femininas e infantis que salvam vidas, o fortalecimento da educação gratuita, laica e de qualidade por um dinheiro para comer hoje, amanhã e talvez depois do amanhã. Não os culpo: a falta de oportunidades para quem nasceu pobre e não tem padrinho tem levado a fome a se ampliar. A fome é boa professora e os obriga a trocar o sonho pelo pragmatismo.

Eu vi também a farra do caqui doce com a máquina pública sendo usada descaradamente… Comissionados envergonhados abanando bandeiras e cantando músicas chicletes que falam de pessoas e um Estado que só existe na cabeça de quem não se envergonha de mentir e iludir para manter a trajetória de poder pessoal.  Vi líderes religiosos usando o nome de Deus para avançar em propósitos pouco cristãos e apoiando a família (deles e nenhuma outra), armar a população e enfraquecer a universidade. Vi mulheres minimizando a violência doméstica e trazendo a palavra de um Deus colérico e vingativo para ratificar suas falas lgtfóbicas e excludentes.

Vi “líderes” não comparecerem a debates por já se julgarem no primeiro lugar do pódio e por terem um exército lutando por eles, seja por ilusão ou coação, a partir de falácias, meias verdades e truculência. Esquecem que Cetshwayo Kampande (rei zulu) enfrentou e pôs a correr ao exército britânico em uma guerra que eles consideravam morna e ganha. Que o machado de Xangô, símbolo da justiça e da verdade no Candomblé, restabelece a verdade e honra aos justos. Muita coisa pode acontecer até dia 02 de outubro.

Concluo te contando que minha campanha está sendo humilde, propositiva e afetiva. O meu quilombo me acolheu e cuidou quando eu enfraqueci. Quando um homem branco, rico, cristão e “padrão” me disse que as pessoas votam em seus iguais ou em quem gostariam de ser e que “pesquisas” indicam que mulher preta lembra subserviência, meu quilombo me lembrou o que me trouxe até aqui: ser a extensão da voz de quem não tem voz, o manto que torna visível aos invisíveis, a referência das meninas pretas que não escolhidas, o espelho de Oxum para as mulheres pretas que não são vistas com afetividade e a doçura da Menina dos Olhos de Oya.

Logo, já sou vencedora. No mais, espero contar sempre com seu carinho, sua deferência e puxão de orelhas quando eu merecer. Sou sua fã

Carinho,

Rosangela Hilário

Não é uma carta de amor? É uma carta de amor ao próximo, às pretas, aos pretos, aos LGBTs, aos humanos. Segue abaixo um texto que copiei do Instagram dela ao procurar una foto para postar esta carta:

Quentinho no coração e frio na barriga. Um desejo imenso de que exista um lugar onde as avós estejam e se orgulhem de nossas ousadias.

Um espelho que mira o passado incrédulo e perplexo sobre percursos e processos. Abraços acolhedores e quilombo prestes a caminhar. Medo? Algum. Mas, meu medo se alimenta da coragem de ter todos os dias que levantar, existir e esperançar.

Não é afronte: é necessidade de ocupar, de avançar e compartilhar. Não nasci em Rondônia: me reconheci uma mulher da luta, da resistência e do quilombo em Rondônia. Eu escolhi Rondônia como minha base para transformar o mundo em um lugar melhor pata todas as pessoas. Eu escolhi estar perto da juventude pobre, preta e periférica, das mulheres que levantam e vão a luta todos os dias e os emudecidos pela condição social. Eu escolhi Rondônia para ser feliz.

Acordei para assumir meu melhor ângulo: aquele em que eu me posiciono a favor da felicidade em todos os tempos e sinônimos. Não é afronte: é desejo de mudança. Sigo com minhas convicções e desejos: princípios são inegociáveis e quem negocia o que não tem é estelionatário. Ontem eu era Professora e queria mudar o mundo pelo compartilhamento de ideias.

Para mim, hoje, inicia a revolução das canetas: sou Candidata a Deputada Federal. Professora Rosangela Hilário, 1221.

Aquilombar para Vencer ✊

(*) Roberto Kuppê é jornalista e articulista político

P.S. Como disse, Rosângela Hilário é candidata a deputada federal por Rondônia, número 1221. Minha candidata a deputada federal é a Fátima Cleide (PT), 1313, mas espero que alguém me mande mensagens dizendo “vou votar nessa preta, vou votar na Rosângela Hilário, 1221”.

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