Por Edson Silveira
Escrevo estas linhas com tristeza. Sou amigo pessoal de Samuel Costa, tenho respeito por ele e, exatamente por isso, lamento profundamente o rumo que vem dando ao seu projeto eleitoral.
Amizade não exige silêncio, muito menos concordância automática. Às vezes, é justamente ela que impõe a franqueza. E, acompanhando esta campanha, confesso: não reconheço no caminho escolhido agora o projeto político que esperava vê-lo defender.
Samuel tem todo o direito de ser candidato ao Governo de Rondônia. Sua candidatura foi mantida pela Justiça Eleitoral. O que merece discussão é outra coisa: para que está servindo politicamente essa candidatura?
No debate da SIC TV, realizado em 21 de setembro, o confronto entre Samuel e Expedito Netto ultrapassou em determinados momentos a discussão programática e entrou no terreno das acusações pessoais. A cobertura do debate registrou direitos de resposta e uma troca particularmente dura entre os dois candidatos.
Isso é lamentável porque Samuel tem propostas para apresentar e deveria fazer delas o centro de sua candidatura. Em debate anterior, por exemplo, defendeu medidas para a educação, incluindo escolas em tempo integral. Há, portanto, matéria política suficiente para que seja cobrado, contestado e conhecido pelo eleitor por aquilo que efetivamente propõe para Rondônia.
De candidato a governador a protagonista de uma guerra pessoal?
É aqui que faço minha crítica como articulista — e também com o desconforto de quem conhece Samuel pessoalmente.
Quando um candidato ao Governo passa a ocupar parte importante do debate público por seus confrontos pessoais, em vez de conseguir colocar seu projeto de Estado no centro da discussão, é legítimo perguntar se a estratégia escolhida está ajudando sua própria candidatura.
E surge uma pergunta que, para mim, tornou-se inevitável:
Samuel está utilizando sua candidatura para construir um projeto político próprio para Rondônia ou sua campanha está se transformando, na prática, em instrumento de desgaste de uma candidatura adversária?
Faço questão de estabelecer uma diferença importante. Não afirmo que exista acordo, orientação ou compromisso de Samuel com qualquer outro candidato, porque uma afirmação dessa natureza exigiria provas. O que questiono é o efeito político da estratégia adotada. São coisas distintas.
Seu histórico eleitoral também oferece contexto para essa discussão. Conforme levantamento publicado pelo Rondônia ao Vivo, nas quatro disputas relacionadas pelo veículo — 2014, 2020, 2022 e 2024 —, Samuel recebeu 2.039, 1.229, 1.607 e 3.359 votos, respectivamente. Sua maior votação naquele levantamento, portanto, foi de 3.359 votos, na eleição municipal de 2024.
Isso não diminui seu direito de concorrer. Mas uma candidatura ao Governo naturalmente aumenta a cobrança por capacidade de agregação, presença estadual e apresentação de um projeto capaz de dialogar com os diferentes municípios e setores da sociedade.
Também existem controvérsias publicadas pela imprensa envolvendo sua trajetória política. Uma reportagem de 2016 trouxe acusações relacionadas à campanha eleitoral de 2014. Mais recentemente, foi noticiada uma ocorrência policial na qual uma filiada do PSB relatou suposto assédio sexual. É indispensável registrar: acusação ou ocorrência policial não significa condenação, e Samuel tem direito à defesa e à presunção de inocência.
Esses episódios podem ser objeto de questionamento jornalístico e político, mas não autorizam ninguém a transformar alegações em fatos definitivamente comprovados.
Digo isso como amigo: ainda há tempo
Talvez esta seja a parte mais difícil deste artigo.
Samuel, você não precisa transformar sua candidatura numa guerra pessoal.
Rondônia precisa saber o que você pretende fazer pela saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, agricultura, servidores e desenvolvimento econômico. É sobre isso que deveria girar uma candidatura ao Governo do Estado.
Discordância política faz parte da democracia. Confrontar adversários também. Mas existe uma distância enorme entre confrontar ideias, trajetórias e propostas e permitir que acusações pessoais passem a dominar a imagem de uma candidatura.
E escrevo isso sem qualquer satisfação.
Sou seu amigo e continuarei respeitando você como pessoa. Mas amizade não me obriga a concordar com uma estratégia política que considero equivocada.
Ao contrário. Justamente porque existe amizade, prefiro a sinceridade ao silêncio conveniente.
Ainda há tempo para Samuel Costa recolocar suas propostas no centro da campanha, explicar ao eleitor aquilo em que acredita e demonstrar qual Rondônia pretende construir.
Porque, depois de tudo que vimos nos últimos debates, uma pergunta permanece sobre a mesa:
Samuel Costa quer ser lembrado nesta eleição pelo projeto que apresentou para governar Rondônia ou pela guerra política que resolveu travar contra um adversário?
Como amigo, lamento o caminho escolhido até aqui.
Triste. Muito triste.
⸻
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor federal aposentado e militante do PT/RO.



