Por Roberto Kuppê (*)
No anúncio dos primeiros nomes que comporão a sua seleção, digo, seu ministério, o presidente eleito do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva (PT), já saiu goleando. Adiantou os nomes de cinco auxiliares os quais são a excelência em pessoa. Em entrevista coletiva antes do jogo entre Brasil e Croácia, Lula anunciou o ex-ministro da Educação e ex-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT) para o Ministério da Fazenda. Lula anunciou também o ex-presidente do TCU (Tribunal de Contas da União) José Múcio para o Ministério da Defesa, o ex-governador do Maranhão e senador eleito Flávio Dino (PSB-MA) para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, Mauro Vieira para o Ministério das Relações Exteriores e o governador da Bahia, Rui Costa (PT-BA), para a Casa Civil. Um timaço. Os anúncios não alteraram o humor do mercado, nem pra cima, nem para baixo.
Os anúncios precederam ao jogo do Brasil. Lula estava torcendo, claro e evidente, pelo Brasil. Seria excelente para o início de governo dele, repetir o que ocorreu em 2002 quando o Brasil se tornou penta campeão mundial. Mas, o que seria um dia festivo, de alegria, se transformou em tristeza Brasil afora.
Não deu. Culpados? Sim, há culpados. Os próprios jogadores, claro, além do técnico que se deixou levar pela irreverência do escrete canarinho, em vez de impor alguma disciplina. Calma que eu explico. Durante coletiva de imprensa na quinta-feira (9), o técnico Tite defendeu seus jogadores que fazem dancinhas após cada gol. Ele afirmou que lastima quem não conhece a cultura brasileira. “Não é minha seleção. É a seleção brasileira, que tenho responsabilidade de ser técnico. Eu lastimo muito e não vou fazer comentários de quem não conhece a história e cultura do Brasil, o jeito de ser. Eu respeito a cultura e o jeito que eu sou, a seleção que trabalho. É a cultura brasileira, e ela não vai desmerecer nenhum outro. É a nossa forma de ser”, declarou.
Mas, permitam-me a crítica, Tite está errado. Tão errado que a seleção brasileira perdeu mais uma oportunidade de alcançar a sexta taça de campeão mundial de futebol. Quando O Brasil levou a inesquecível goleada da Alemanha em 2014, numa copa do mundo realizada aqui mesmo (que vergonha), lembro que escrevi um texto, mas não achei ainda para comprovar o que disse há oito anos. Aliás, essa observação eu já fazia bem antes do fatídico 7×1. O jogador da seleção brasileira se preocupa mais em lacrar, com o visual e parecer alegre e extravagante do que, propriamente, jogar bola. Nessa copa, Neymar me aparece com um corte de cabelo à la moicano. Lacrou. Depois chorou.
Tatuagens exageradas, pinturas e cortes extravagantes dos cabelos, dancinhas, são distrações que prejudicam no rendimento. Ainda está bem fresquinho, vejam o visual e os semblantes dos jogadores da Croácia. Sem nada que possa tirar a atenção do principal objetivo, que é fazer gol e se classificar. Foi só Neymar fazer o gol que seria a redenção de nossa seleção, que a equipe caiu de rendimento porque as comemorações foram exageradas, faltando ainda alguns minutos para o término do segundo tempo da prorrogação. Vacilou, tomou gol. Perderam dois pênaltis porque estavam nervosos. Fomos desclassificados e alvo de zombaria mundial.
Assino em baixo ao texto crítico de Walter Casagrande, ex-craque do Corinthians e da seleção brasileira: “Assim como em 2018, não tivemos um jogo, e sim jogadores em campo. Novamente, quando batemos de frente com uma seleção europeia de médio ou grande porte, “dançamos”. Só demonstramos força e imposição contra a fraca Coreia do Sul, e os ufanistas, juntos com os fãs de Neymar, já transformaram a seleção num “fenômeno”. Teve jogador que se preocupou em ensaiar dez dancinhas, mas não fez um gol e foi mal na Copa. E jogadores que, na folga, foram a convite de Ronaldo comer a famosa carne folheada a ouro”. Isso é fato.
Casagrande arrematou: “Tite se deu ao luxo de trazer para cá Daniel Alves, com 39 anos, para bater o recorde do jogador mais velho a vestir a camisa da seleção e a faixa de capitão numa Copa. Além, claro, de tocar pandeiro e imitar o chef de cozinha jogando ouro na carne. Ele foi de uma inutilidade incrível para a seleção brasileira”. E disse mais: “Pintaram o cabelo, mas a bola faltou. Enquanto no Brasil as 35 milhões de pessoas que passam fome se viraram para torcer pela seleção, eles faziam careta para a câmera depois de marcarem gols. Careta para o povo brasileiro, porque eram eles que estavam assistindo à Copa pela TV. Esses caras não foram capazes de jogar pelo povo brasileiro. Só por eles”.
Finalizando, disse Casagrande: “O ano de 2023 vai começar com um governo verdadeiramente democrático e talvez com um novo treinador de seleção brasileira. Espero que tudo, mas tudo mesmo, comece a mudar. Faremos um novo time, teremos novos ídolos, mas com certeza esses caras do penta estarão novamente em 2026 no mesmo camarote da Fifa, ganhando para ficar ali fazendo papel de papagaio de piratas de dirigentes”.
Com certeza o maior derrotado foi Tite que não soube conduzir a seleção, com disciplina e foco. Caprichar mais nos treinos, na pontaria, menos na pintura dos cabelos para lacrar. Pintura só o gol de Richarlison que ficará para a história, mesmo ofuscado pela desclassificação do Brasil. Jogador de futebol é jogador de futebol. Não é dançarino e nem cantor de pagode. Quer lacrar, vai pra Farofa da GKay. Quer ser irreverente e fazer, vai pra Praça É Nossa. Pronto, falei.
Voltando ao “técnico” Lula, ele escalou os cinco primeiros nomes à altura da dura missão que terá pela frente, o de reconstruir o Brasil destruído nos últimos seis anos, após o impeachment de Dilma. Dois ex-governadores super bem avaliados. Sérios, experientes e de rendimentos comprovados. Um ex-ministro da Educação, que revolucionou o setor. E na semana que vem Lula conclui seu escrete canarinho que com certeza não nos decepcionará.
Chega de ministro do Meio Ambiente que é a favor do desmatamento. Chega de ministro da Saúde que é contra a vacinação. Chega de ministro dos Direitos Humanos que apoia a tortura. Chega de ministro da Educação que diz que crianças com deficiência “atrapalham” e corta verbas de universidades. E, finalmente, chega de presidente da República que, em meio a uma pandemia, fica passeando de moto e jet sky, deixando uma população inteira ao Deus dará.
Para finalizar, que balde de água fria, digo, que caixa d’água fria que Bolsonaro jogou sobre os manifestantes que se postaram na frente do Palácio da Alvorada após o jogo. Bolsonaro, disse, em outras palavras, que não haverá golpe militar, que não tentará voltar ao poder à força como querem os manifestantes. É claro que ele não deixou isso claro, permitindo aos resistentes revolucionários a sonhar com um golpe militar perpetrado pelas Forças Armadas. Xandão só está esperando a cereja do bolo. Se é que me entendem.
(*) Roberto Kuppê é jornalista e articulista político



