Por Edson Silveira
A política brasileira tem uma curiosa capacidade de produzir coincidências extraordinárias. De tempos em tempos, surge um empresário poderoso, cercado de influência, recursos e portas abertas nos mais diversos círculos de poder. Todos o conhecem, todos o frequentam, todos se beneficiam de alguma forma de sua proximidade. Mas basta a polícia bater à porta que uma epidemia de amnésia coletiva se espalha por Brasília.
O caso envolvendo o empresário Daniel Vorcaro e o Banco Master parece seguir exatamente esse roteiro.
De um lado, temos o senador Jaques Wagner. De outro, o senador Flávio Bolsonaro. Ambos aparecem no noticiário associados, em maior ou menor grau, ao banqueiro que hoje se encontra no centro de investigações que precisam ser esclarecidas com rapidez e profundidade.
É evidente que ninguém deve ser condenado pela manchete do dia. Em um Estado Democrático de Direito, investigações não substituem sentenças, suspeitas não equivalem a provas e o devido processo legal deve ser respeitado integralmente. Isso vale para Jaques Wagner, vale para Flávio Bolsonaro e vale para qualquer cidadão brasileiro.
Mas isso não impede uma análise política e comportamental dos fatos.
No caso de Jaques Wagner, há questionamentos que podem exigir explicações sobre negócios, relações e circunstâncias atualmente sob investigação. Ainda assim, até o presente momento, não se viu o senador negar categoricamente a existência de pessoas, relações ou fatos que depois vieram a ser comprovados.
Já no caso de Flávio Bolsonaro, o foco da crítica não está apenas na relação com Vorcaro, mas na forma como essa relação foi apresentada ao público. Quando surgiram os questionamentos, a proximidade foi minimizada. Quando vieram mensagens, áudios e evidências públicas, a versão precisou ser ajustada. O que antes parecia distante tornou-se próximo. O que era irrelevante passou a ser reconhecido. O que não existia passou a existir.
É uma estratégia política antiga: negar até que a realidade se torne insustentável.
É justamente nessa diferença de comportamento que reside o ponto central da discussão.
Na política, o erro pode até ser perdoado. A mentira costuma ser muito mais difícil.
Quem fala a verdade desde o início pode até enfrentar investigações, responder perguntas difíceis e sofrer desgaste público. Mas quem escolhe esconder, omitir ou negar fatos que depois se tornam públicos cria contra si um problema adicional: a destruição da própria credibilidade.
Afinal, se a versão mudou depois que surgiram as provas, qual era a versão verdadeira?
Por isso, embora ambos os casos mereçam investigação rigorosa, a conduta pública observada até agora parece menos danosa no caso de Jaques Wagner do que no de Flávio Bolsonaro.
Não porque um seja inocente e o outro culpado. Isso cabe exclusivamente à Justiça decidir.
Mas porque transparência, ainda que parcial, sempre será melhor do que a negação seguida de constrangimento público.
O Brasil já perdeu tempo demais convivendo com políticos que se apresentam como vestais da moralidade até que a próxima reportagem apareça.
Chega dessa hipocrisia seletiva.
Se houve crime, que os responsáveis sejam identificados.
Se houve corrupção, que os corruptos sejam condenados.
Se houve enriquecimento ilícito, que haja ressarcimento ao erário.
Mas que tudo ocorra com respeito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal.
A Justiça não deve proteger ninguém por ser aliado do governo.
Mas também não deve perseguir ninguém por ser adversário.
A régua precisa ser a mesma para todos.
Mais do que decidir o destino de indivíduos específicos, casos como esse testam a capacidade das instituições e da sociedade de aplicar princípios de forma coerente. O combate à corrupção perde legitimidade quando é usado apenas como arma contra adversários e escudo para proteger aliados. Sem isonomia, não há credibilidade; sem credibilidade, não há confiança pública. E, nesse ponto, tanto a esquerda quanto a direita brasileiras ainda têm muito a aprender.
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor e membro da executiva do PT/RO.



