Por Roberto Kuppê (*)
“Eu não vou falar porque eu acho que é mais uma armação do Moro, mas eu quero ser cauteloso. Eu vou descobrir o que aconteceu. É visível que é uma armação do Moro, mas eu vou pesquisar e vou saber porque da sentença”, disse Lula, que questionou a decisão da juíza. “Até fiquei sabendo que a juíza não estava nem em atividade quando deu o parecer para ele, mas isso a gente vai esperar.” Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
O insípido, inodoro e incolor, ex-juiz e atual senador da República, Sérgio Moro (União Brasil-PR), mesmo com poucos neurônios (meu Deus, como isso se tornou juiz?) no cérebro, viu uma oportunidade ímpar de sair da obscuridade no Congresso Nacional e, ao mesmo tempo, fazer um contraponto com Lula que foi praticamente inocentado das acusações na Lava Jato.
“Mas, como assim?”, devem estar se perguntando os leitores destas linhas neste momento. O fato ocorreu, sim, mas não da forma narrada pelo senador paranaense que a grande mídia comprou como verdade. Ele simplesmente pegou uma carona em um fato real, se colocando na história como personagem principal.
A juíza Gabriela Hardt, amiguinha de Moro, agiu para colocar o senador no foco de uma trama armada pelo PCC que pretendia, de fato, matar e ou sequestrar autoridades brasileiras com o objetivo de soltar o perigoso Marcola que está numa prisão de segurança máxima. Esse é o ponto, o fio da meada.
Até porque Sérgio Moro não significa nada para o PCC. Não tem nenhuma importância para a facção criminosa, mas o nome dele dá mídia. Moro para o PCC era apenas um nome, uma moeda de troca. Se por um acaso fosse sequestrado, daria, como se diz, muito Ibope pro PCC que poderia negociar a soltura de Marcola. Registre-se que a trama vinha sendo planejada desde 2017, anterior à prisão de Lula (2018) e à própria eleição do petista, 2022.
O PCC queria e ainda quer libertar Marcola, mas o foco era o promotor Lincoln Gakiya, que de fato incomodou a facção. O próprio Lincoln Gakiya disse e repetiu que Moro nunca fez nada de relevante contra Marcola. E o chamou de mentiroso por se apresentar como protagonista das medidas de restrição aos presidiários do PCC.
Moro disse em entrevista à GloboNews que é ameaçado por ter agido com determinação contra o PCC como juiz e ministro de Bolsonaro. Nenhum dos três jornalistas no estúdio perguntou o que ele fez, porque o entrevistado não saberia o que dizer.
O que já se sabe e é repetido desde ontem, inclusive pelo promotor Lincoln Gakiya, é que em fevereiro de 2019 Moro proibiu visitas íntimas aos presos do PCC. Provocou Marcola, mas nunca fez nada de relevante.
“Ah, mas o STF soltou o suspeito de planejar tudo”. Exato. O STF soltou. E o ministro que soltou o traficante foi Marco Aurélio de Mello, primo de Collor de Mello, aliado de Bolsonaro.
“A história de Sergio Moro com Lula não é a história de um algoz presidente, é a de um juiz algoz. Então parem de hipocrisia. O senador sabia há mais de um mês das investigações da Polícia Federal que levaram à prisão de membros da quadrilha que planejava ataques contra vários agentes públicos, inclusive ele próprio, e chegou a ter sua segurança reforçada. Polícia Federal sob o comando de Lula e Dino, a propósito. Agora, buscando criar uma narrativa para atacar o governo, Moro se vitimiza e usa declaração de Lula para levantar suspeitas infundadas”. Blog do Rovai
Este que vos escreve passou 24 horas pensando o que escrever sobre o assunto. Lula parecia indefensável. Como muitos, por um momento, este articulista achou que Lula tinha falado besteira. Mas, Lula sabia muito bem do que estava falando quando disse que desconfiava de mais uma armação. A grande imprensa protege Moro para se proteger, porque as armações do lavajatismo só existiram com a cumplicidade lacaia das corporações de mídia.
A Lava-Jato foi uma grande armação. O próprio Moro é uma armação da direita e da extrema direita brasileira e americana, de parte do sistema de Justiça, da Globo, da Folha, do Estadão, da Fiesp, de grileiros, militares, manés e milicianos.
Junte-se a isso, o fato de Lula, já no primeiro dia de mandato, desfez o decreto das armas de Bolsonaro, cujas armas abasteciam o crime organizado através de compras legais. Lula sim deu um duro golpe no crime organizado. E um duro golpe na Bancada da Bala que é bancada pela indústria de armas. Por isso, a maioria dos parlamentares que quer o impeachment de Lula é formada por deputados e senadores eleitos com apoio da Taurus, por exemplo.
A fala de Lula no dia anterior à operação da PF foi o start para a turma do Moro agir com suas narrativas. Ao dizer inoportunamente que desejaria “foder” a vida de Moro, Lula deu a senha para os ataques contra o presidente e a chance para a juiza Gabriela Hardt colocar o plano em ação autorizando a operação da PF.
Para contrapor a fala de Lula de que poderia ser uma armação de Moro, a dita juíza quebrou o sigilo da operação, que mostrou que realmente o PCC queria fazer mal às autoridades, inclusive ao Sérgio Moro. Complicou para Lula porque o fato aconteceu sim, mas não da forma como foi narrado pela oportunista turma de Moro.
O erro de Lula foi comentar a desconfiança de que seria uma armação, que de fato foi, porque Moro não era e nunca foi o objetivo e o foco do PCC nesta ação contra as autoridades. Há quem diga até que o nome de Sérgio Moro nem estava na lista do PCC, que foi inserido pela juíza Gabriela Hardt após Lula falar que desejaria ferrar com ele por tê-lo prendido por 580 dias em Curitiba.
Sem sentido
O jornalista e escritor João Paulo Charleaux, autor do livro “Ser Estrangeiro” e colaborador de publicações como Globo, Folha, Estadão, Nexo e Piauí, não vê sentido algum na história que vem sendo contada até sobre o suposto plano do PCC para assassinar o ex-juiz suspeito e hoje senador Sergio Moro. Confira:
Segundo um dos advogados dos presos, Moro nunca foi alvo. “Não vi em nenhum momento o nome de Sergio Moro”, afirmou o advogado Juan Felipe Souza sobre a operação da PF que prendeu suspeitos de planejar o assassinato de autoridades.
Moro é o único que não pode falar em combate à criminalidade porque, durante a estada dele no Ministério da Justiça, corroborou com as atrocidades de Bolsonaro e não permitiu a investigação do Caso Marielle. Moro é armamentista e apoiou a venda indiscriminada de armas que, muitas delas, foram parar nas mãos do crime organizado, inclusive do PCC.
O assunto ainda vai render. Por enquanto, tá rendendo até para Bolsonaro que viu uma brecha para voltar como “herói”. Diz ele que volta no dia 30, próxima quinta, o que duvidamos. Porque a esta altura, Lula estará na China fazendo o costumeiro sucesso de sempre, atraindo a mídia mundial para si.
Em tempo. Lula pode até pensar, mas não pode falar tudo que pensa. O assunto Sérgio Moro é competência do ministro Flávio Dino. Até porque, quando Lula fala, é sem rodeios, sem meias palavras. Já, Dino sabe tergiversar, ou seja, mede as palavras.
Dito isto, sextou com o fim de mais uma narrativa mentirosa da direita golpista. O terno de posse de Geraldo Alckmin pode continuar no guarda-roupa. E Lula sai vencedor mais uma vez e viaja só domingo para a China com a alma lavada: “eu disse que era armação!”.
*Com informação de Brasil 247 e Portal Terra
O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador. O Portal Mais RO não tem responsabilidade legal pela opinião, que é exclusiva do autor.



