Por Elizeu Lira (*)
Ao contrário do que é apregoado, a democracia em países pobres da periferia é exercida parcialmente e apenas dois tipos de cidadãos a praticam na sua totalidade: os que têm autonomia econômica e os com forte consciência política
A campanha eleitoral está em curso e caminha rapidamente para o desfecho final. As coordenações, os marqueteiros, os candidatos, as famílias dos candidatos, os amigos dos candidatos… enfim, todos buscam uma fórmula para ganhar a adesão dos eleitores em número suficiente para vencer o pleito e usufruir das benesses e do poder que os cargos eletivos proporcionam. Tentarei, no limite deste artigo, discorrer as variáveis socioeconômicas que levam os eleitores a optarem por este(a) ou aquele(a) candidato(a) – e veremos que delas derivam a composição duvidosa dos nossos parlamentos e as escolhas inacreditáveis dos executivos.
Como escrevi no “pescoço” do artigo, apenas dois tipos de cidadãos escolhem os seus políticos nas urnas com autonomia total de suas consciências, sempre considerando que em democracias representativas o termo “autonomia total” também possui limites que o relativiza, uma vez que lhes são ofertadas opções de escolhas (candidatos(as) das quais eles não participaram. Logo, ou não escolhem (votam em branco ou anulam seus votos), ou aceitam os nomes disponibilizados.
No espaço público, onde se dá a batalha eleitoral por busca de votos, as relações sociais e econômicas fora dos períodos eleitorais não são dissociadas destes e nem construídas ignorando a existência das eleições. Existem conexões diretas entre uma coisa e outra, de tal modo que, ao ir votar, o eleitor já o fará influenciado pelas variáveis econômicas com as quais conviveu entre uma eleição e outra. Explico.
As políticas públicas, todas elas, são formuladas para serem instrumentalizadas para influenciar o voto. Como elas são parciais, pouco republicanas, frágeis, de pouco alcance (mesmo as universalizadas), os mais pobres não são alcançados como deveriam e quase sempre é necessário recorrer a algum “pistolão” para que sejam atendidos. O indivíduo beneficiado pela intervenção do “generoso” pistolão possui família que, como ele, fica muito grato a quem o ajudou. O mesmo ocorre com funcionários públicos comissionados (nas três esferas de poder e nos três poderes). Indicados para cargos diversos, os individuo são “gratos” a quem os nomearam, de modo que esta “gratidão” se estende aos seus familiares e, neste caso, amigos.
Mesmos os servidores públicos concursados não estão imunes às “influencias políticas eleitorais”. Existem gratificações disponíveis, verbas indenizatórias em atraso, pecúnias pendentes, férias acumuladas, cargos de chefia em aberto, participação em grupos de trabalho, conselhos, que são utilizados como moeda de troca eleitoral. E os servidores públicos concursados também possuem famílias e amigos – sem contar aqueles cidadãos que, por força da cultura e da prática clientelista, lhes devem algum “favor”.
Na esfera privada, as relações políticas dos empresários empregadores lhes impõem a necessidade de usar as suas influencias sobre seus empregados para “encaminhar” sugestões de votos em certos candidatos. Neste caso, o patronato eleitoral atinge milhões de eleitores em épocas de eleições. Os empregados das empresas privadas possuem famílias e amigos – e como são milhões, o alcance do patronato eleitoral influencia boa parte da população.
Indo um pouco mais adiante, chega-se às instituições do terceiro setor, entre as quais incluo as associações comunitárias de todo o tipo, desde as esportivas às religiosas. Todas elas necessitam de recursos para desenvolver suas atividades e, fazendo isso, serem úteis à comunidade ou ao segmento que servem. Os recursos os quais os dirigentes das instituições do terceiro setor têm acesso, em geral veem do poder público e, mais uma vez, como “não é possível atender a todos”, conseguem acessá-los apenas quem têm “boa relação política” com alguém do governo ou com um político qualquer. No caso das instituições esportivas (de todas as modalidades), a calculada ausência de apoio público ao setor é um prato cheio para políticos e candidatos as “brindarem” com jogos de camisas, bolas, ônibus, passagens e outros itens sempre escassos aos atletas. Também os dirigentes das organizações do terceiro setor, atletas inclusos, possuem famílias e amigos.
Estas relações se estendem para o conjunto da sociedade e contaminam os espaços por onde passam, desiquilibrando a disputa eleitoral e permitindo que os que possuem mandatos e cargos públicos saiam na frente dos demais. Não existem estudos sobre a quantidade dos eleitores influenciáveis por estas relações, mas pelo que foi descrito acima, resta pouco espaço para o eleitor sair de casa no dia da eleição levando apenas sua convicção e o desejo de voltar em alguém que escolheu por livre vontade – mesmo tendo convivido com todas os elementos de influências citados aqui.
A rigor, dos votos destes eleitores dependem os novatos da política. E são pouco, muito poucos.
(*) Elizeu Lira, 59 anos, sociólogo, especialista em políticas públicas



